Entenda-se a metáfora com espírito aberto e generosidade:
governos costumam ter alma. Os melhores caracterizam-se por ter uma
consistente, que lhes dá força, coesão e audácia nos campos político e
administrativo. Os piores, ao contrário, vivem sem eixo.
Como não são integrados por anjos, mas por homens, mulheres
e partidos, com suas paixões, suas idiossincrasias e seus apetites, governos
sempre tendem a se dividir em pedaços, pequenas almas que competem entre si
pelas luzes da ribalta, pelos aplausos do público, pelos mimos do chefe.
Somente uma alma que se destaque e se imponha – uma anima magister – consegue
domar os demônios que brotam do cotidiano governamental. Tem sido assim em
todos os governos, dentro e fora do Brasil.
O Estado e, sobretudo, a sociedade sofrem quando são
governados por governos desprovidos de alma: sem um programa, um núcleo
coordenador, um partido ou uma liderança inconteste, qualificada para fazer que
prevaleça uma direção. Por não saberem que rumo tomar, governos sem alma agem
por impulso, por espasmos, ao sabor dos interesses parciais que nele preponderam
e nem sempre coabitam. Deixam assim de poder cumprir a missão que deles se
exige. No limite, vivem em turbulência, aos solavancos, espalhando crises por
todos os lados. Natural que, nessa situação, tudo o que acontece de
problemático em seu interior reverbere no exterior, desgastando-lhes ainda mais
a imagem.
Passados 26 dias de sua posse, o governo Bolsonaro não
mostrou ter uma alma. Falta-lhe quase tudo: programa, projeto de País,
discurso, comunicação, temperança, conhecimento do terreno, prudência, capacidade
de articulação, quadros técnicos e políticos competentes. Exceção feita às
áreas da Economia, da Justiça e de Infraestrutura, o restante é um amontoado de
figuras menores, com mentalidade provinciana, que falam pelos cotovelos, mas
dizem pouco, como se tivessem, repentinamente, caído do céu para realizar uma
tarefa que desconhecem e para a qual não foram treinadas. A improvisação dá o
tom.
Os ataques ao “globalismo” feitos em nome de uma “Pátria
soberana” que abaixa a cabeça para os poderosos do mundo são acompanhados de um
esforço contumaz para desmontar os pilares institucionais, éticos e políticos
da política externa brasileira. Desprezam as perspectivas que trabalham pela
construção de um sistema internacional mais cooperativo e sustentável, livre de
muros e barreiras ideológicas. O presidente disse em Davos que praticará uma
política econômica de abertura e acima de ideologias, ao passo que seu ministro
do Exterior se derrama em pregações ideológicas e fala em fechar o País aos
“globalistas”. É uma dentre várias dissonâncias.
Entoar a cantilena autoritária da “caça aos marxistas” nas
escolas só serve para ocultar a falta de um plano de ação que se dedique a
recuperar o sistema escolar. A política educacional desponta com um vezo
moralista e conservador que ignora as graves deficiências que minam a educação
brasileira. Há, também, falas ministeriais despropositadas, sem pés nem cabeça,
feitas como se estivessem referidas a outro tempo histórico e a um País datado.
Estão a ser rasgados importantes mapas de navegação, que
poderiam dar ao governo alguma direção. Desprezam-se tradições consolidadas,
práticas administrativas bem-sucedidas e atitudes políticas que contribuíram de
forma decisiva para erguer o Brasil moderno que conhecemos e, no momento inaugural
de um novo governo, serviriam de base operacional e fator de equilíbrio.
Submete-se assim a máquina governamental a um estresse perigoso, fazendo-a
funcionar com uma bomba-relógio amarrada ao corpo, a marcar o estouro da
próxima crise.
A população torce para que o novo governo acerte. É a maior
interessada em que isso se concretize e sabe que é preciso dar tempo ao tempo,
não atropelar as coisas, não pedir o impossível. Mas o governo não se ajuda.
Como será quando o jogo começar para valer, daqui a poucos dias, com o novo
Congresso devidamente empossado e funcionando a todo vapor? A articulação
política e o desempenho técnico que não existiram no primeiro mês serão ainda
mais indispensáveis e o governo precisará encontrar, em seu interior, uma dinâmica
que o auxilie a modelar sua alma e a domar seus demônios.
Não é por acaso que setores do governo, incentivados, ao que
parece, pelos generais e pelo vice-presidente Mourão, começam a se mexer para
blindar o presidente das estripulias de seus filhos e dos efeitos do caso
Flávio Bolsonaro e para reforçar a agenda positiva na Economia e na Justiça, as
únicas áreas que demonstram ter, até agora, capacidades executivas. Procuram
assim emprestar uma alma ao governo, no mínimo para lhe fornecer um mínimo de capital
político para lidar com o Congresso e a opinião pública.
A extrema direita que sustenta o governo parece por ora
imune aos conflitos e tensões que espocam no seu interior. Demonstra tanta
autoconfiança que se dá ao luxo de descuidar do fundamental. Continua em
campanha, quando precisa governar. O excesso de confiança, nesse caso, produz
arrogância e exagero nas relações com o poder, rei de todos os demônios.
O governo ainda tem tempo, pode aproveitar a lua de mel dos
primeiros meses. Mas o bloco que o sustenta parece ter uma solidez mais
aparente que real. Beneficia-se, em boa medida, da inoperância oposicionista,
ainda sofrendo as dores da derrota do centro-esquerda em outubro, que
desbaratou e desorientou seus grupos e partidos. É um quadro que não se
prolongará no tempo. No momento em que a vida política recuperar o fôlego e os
democratas liberais e progressistas voltarem a se movimentar com desenvoltura,
será, então, a hora de ver quanto o governo avançou ao encontro de si próprio,
modelando uma alma que o guie e oriente, ou se permanecerá atormentado pelos
demônios de que não consegue se livrar.

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