Há uma grande distância entre o que o Facebook faz com os dados de seus usuários e o grau de conhecimento que os usuários têm da atuação da rede social, revelou pesquisa do Pew Research Center. A disparidade é de tal ordem que, por exemplo, 74% dos usuários não sabiam que o Facebook armazena para fins comerciais uma série de informações sobre seus interesses pessoais. A pesquisa foi realizada com adultos residentes nos Estados Unidos. Não há indícios de que os usuários brasileiros estejam mais bem informados. Os dados preocupam, já que revelam um frágil conhecimento e, consequentemente, um débil consentimento sobre o uso que a rede faz das informações sobre seus usuários.
É cada vez mais frequente o armazenamento de uma grande
quantidade de informações sobre o comportamento das pessoas na internet. Esses
dados são amplamente utilizados para fins comerciais, como, por exemplo, para
segmentar a publicidade que é apresentada a cada pessoa que navega na
internet. A
pesquisa Algoritmos do Facebook e Dados Pessoais teve por objetivo
avaliar o grau de compreensão que os usuários do Facebook têm sobre os sistemas
de classificação baseados em algoritmos e se eles consideram que essas
classificações refletem com acuidade suas personalidades.
Após responderem a um questionário, os entrevistados foram
orientados a entrar na página “suas preferências de anúncios”, que o Facebook
gera para cada usuário. Foi apenas nesse momento que a grande maioria das
pessoas (88%) soube que a rede social tinha gerado um material específico sobre
elas. Ao descobrirem esse conteúdo, 59% afirmaram que as preferências listadas
pelo Facebook correspondiam em alguma medida a seus interesses reais. Já 27%
avaliaram que a listagem era imprecisa.
Mais da metade dos entrevistados (51%) mostrou-se desconfortável
com a existência de uma lista de preferências pessoais criada pela plataforma.
Apenas 5% disseram estar muito confortáveis com a lista de interesses.
A pesquisa também avaliou a percepção dos entrevistados
sobre duas listagens que o Facebook faz de alguns usuários: sobre suas
tendências políticas e sobre suas afinidades étnicas e culturais. Cerca de
metade dos entrevistados (51%) havia recebido do Facebook uma determinada
classificação política, distribuída em três grupos: liberais, conservadores e
moderados. Sobre esse tópico, 73% consideraram-se fielmente retratados e 27%
disseram que a avaliação política recebida era imprecisa.
Em relação às afinidades étnicas e culturais, 21% dos
usuários haviam recebido uma determinada classificação. De acordo com o
algoritmo do Facebook, 43% tinham interesse na cultura afro-americana; 43%, na
cultura hispânica; e 10%, na cultura asiático-americana. Sobre esse tópico, 57%
disseram que o Facebook havia acertado sobre a sua afinidade cultural e 39% não
se consideravam membros do grupo designado pelo Facebook. O grau de acerto é
baixo.
O uso da afinidade multicultural pelo Facebook para
segmentar o público dos anúncios causa controvérsias. No ano passado, após
pressão do Congresso americano, a rede assinou acordo com o Procurador-Geral do
Estado de Washington comprometendo-se a proibir que os anunciantes excluíssem
ilegalmente usuários por questões de raça, religião e orientação sexual, entre
outros critérios discriminatórios.
No ano passado, o Congresso aprovou a Lei 13.709/2018, que
regula o tratamento de dados pessoais, também nos meios digitais. “Toda pessoa
natural tem assegurada a titularidade de seus dados pessoais e garantidos os
direitos fundamentais de liberdade, de intimidade e de privacidade”, prevê a
lei. Há um longo caminho, seja para uma melhor compreensão por parte da
população dos seus direitos, seja para uma prática que respeite de fato a
liberdade, a intimidade e a privacidade. Há certamente algo a ser aperfeiçoado
quando empresas lucram tanto com dados dos usuários sem que eles saibam
exatamente o uso que é dado a essas informações.

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