Quando fiquei grávida pela primeira vez, nem eu nem o pai
quisemos saber o sexo antes. O médico sabia. Mas pedimos que não nos contasse.
Queríamos uma surpresa. A decisão não afetou nossa “conversa” com o bebê na barriga.
Fosse menino ou menina, o papo era o mesmo, de amor. Mas precisávamos arrumar o
quarto. De que cor? Rosa? Azul? Optamos por amarelo. Roupinhas de
recém-nascido? Brancas sobretudo. Mas havia de todas as cores. Quando nosso
bebê nasceu, de parto normal, o pai me disse: vamos chamar de Bruno? A história
se repetiu com meu caçula e o segundo marido. Seria menino ou menina? Nasceu
com cara de Pedro. Hoje, com essa discussão de rosa e azul, parece até
transgressor não termos desejado saber o sexo dos bebês.
Cores importam para definir o gosto e a personalidade de
alguém, não o gênero. A ministra Damares Alves, até agora a mais fogosa do
Ministério, aquela que, possuída, encontrou Jesus Cristo na goiabeira, acha que
a cor da roupa define até a orientação sexual da criança. É isso que está por
trás de seus pulinhos e gritos de que o Brasil entrou em “uma nova era”.
Damares decretou. A partir de agora, menina veste rosa. Menino veste azul.
Ouviu, pessoal? Menina será princesa. Menino será príncipe. Não sabemos ainda
quando vão se aposentar, mas cada um fica no seu quadrado, ela se deita e
seduz, ele a beija e salva.
Sob pretexto de combater a ideologia de gênero, a ministra
da Mulher, Família e Direitos Humanos cria um “viés de gênero” com suas
declarações. Damares ofende o bom senso, maltrata a lucidez. Menina pode gostar
do que ela quiser, nas cores, brinquedos e aventuras. Menino também, chega de
opressão macha sobre os garotos. É muita pretensão da pastora querer
estabelecer os códigos e a educação dentro dos lares do país. Se Damares
decretasse o oposto (agora, menina veste azul e menino veste rosa), seria um
surto de arrogância do mesmo jeito. Às vezes dá vontade de simplesmente ignorar
Damares, mas ela é a ministra da Mulher. Assusta.
Uma pasta importante dessas, que cuida de diversidade, de
direitos humanos, uma pasta destinada a combater a discriminação social, sexual
e racial... merecia alguém mais equilibrado. Com todo o respeito. É preciso
explicar a Damares que uma coisa é se esgoelar para um rebanho de fiéis. Outra
é falar para a nação sobre temas delicados, que não podem ser pautados por uma
crença religiosa — ou pela falta de fé. E sim pela razão. A liturgia do cargo
tem de ser respeitada, sob pena de a ministra permanecer tema favorito de memes
e galhofas pelos próximos anos. Por que Damares alardeia ser “terrivelmente
cristã”? Que advérbio mais doido esse. Cristã basta. Quem é terrivelmente
agnóstico, terrivelmente umbandista, terrivelmente espírita, terrivelmente
católico?
Até agora, Damares só conseguiu ser terrivelmente
inconveniente. Até para os cristãos esclarecidos. Nesse factoide de cores,
falta à ministra perspectiva histórica. O manto de Maria, mãe de Jesus Cristo,
é azul-celeste. No início do século passado, azul não era “cor de menino”. Como
publicou O GLOBO em sua edição de ontem, o azul tinha antigamente a delicadeza
como mensagem. E o rosa era a cor masculina. Por se parecer com o vermelho do
sangue, passava a ideia de força. Mudaram as mensagens e os tons com o tempo.
Meninos e meninas aprenderam nas últimas décadas, com o avanço dos costumes,
que podem ser delicados e fortes, sensíveis e poderosos. Vamos tentar não mudar
isso aí, ok?
Hoje, tenho um casal de netos. A menina, com 5 anos, já
passou da fase de adorar cor-de-rosa e princesas. Hoje ela me diz: “Não gosto
mais de princesas. Gosto de super-heróis e heroínas. O lugar de menina, vó, é
onde ela quiser.” Nina ama a Estelar, a Mulher-Maravilha e a Batgirl. E os
Detetives do Prédio Azul. Tom está com 11 meses e gosta mesmo de...bola. Bolas
de todas as cores, sem preconceito. Aleluia.
Ruth de Aquino é jornalista

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