quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O ARCO-ÍRIS DE DAMARES

Ruth de Aquino, O GLOBO
Quando fiquei grávida pela primeira vez, nem eu nem o pai quisemos saber o sexo antes. O médico sabia. Mas pedimos que não nos contasse. Queríamos uma surpresa. A decisão não afetou nossa “conversa” com o bebê na barriga. Fosse menino ou menina, o papo era o mesmo, de amor. Mas precisávamos arrumar o quarto. De que cor? Rosa? Azul? Optamos por amarelo. Roupinhas de recém-nascido? Brancas sobretudo. Mas havia de todas as cores. Quando nosso bebê nasceu, de parto normal, o pai me disse: vamos chamar de Bruno? A história se repetiu com meu caçula e o segundo marido. Seria menino ou menina? Nasceu com cara de Pedro. Hoje, com essa discussão de rosa e azul, parece até transgressor não termos desejado saber o sexo dos bebês.
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Cores importam para definir o gosto e a personalidade de alguém, não o gênero. A ministra Damares Alves, até agora a mais fogosa do Ministério, aquela que, possuída, encontrou Jesus Cristo na goiabeira, acha que a cor da roupa define até a orientação sexual da criança. É isso que está por trás de seus pulinhos e gritos de que o Brasil entrou em “uma nova era”. Damares decretou. A partir de agora, menina veste rosa. Menino veste azul. Ouviu, pessoal? Menina será princesa. Menino será príncipe. Não sabemos ainda quando vão se aposentar, mas cada um fica no seu quadrado, ela se deita e seduz, ele a beija e salva.
Sob pretexto de combater a ideologia de gênero, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos cria um “viés de gênero” com suas declarações. Damares ofende o bom senso, maltrata a lucidez. Menina pode gostar do que ela quiser, nas cores, brinquedos e aventuras. Menino também, chega de opressão macha sobre os garotos. É muita pretensão da pastora querer estabelecer os códigos e a educação dentro dos lares do país. Se Damares decretasse o oposto (agora, menina veste azul e menino veste rosa), seria um surto de arrogância do mesmo jeito. Às vezes dá vontade de simplesmente ignorar Damares, mas ela é a ministra da Mulher. Assusta.
Uma pasta importante dessas, que cuida de diversidade, de direitos humanos, uma pasta destinada a combater a discriminação social, sexual e racial... merecia alguém mais equilibrado. Com todo o respeito. É preciso explicar a Damares que uma coisa é se esgoelar para um rebanho de fiéis. Outra é falar para a nação sobre temas delicados, que não podem ser pautados por uma crença religiosa — ou pela falta de fé. E sim pela razão. A liturgia do cargo tem de ser respeitada, sob pena de a ministra permanecer tema favorito de memes e galhofas pelos próximos anos. Por que Damares alardeia ser “terrivelmente cristã”? Que advérbio mais doido esse. Cristã basta. Quem é terrivelmente agnóstico, terrivelmente umbandista, terrivelmente espírita, terrivelmente católico?
Até agora, Damares só conseguiu ser terrivelmente inconveniente. Até para os cristãos esclarecidos. Nesse factoide de cores, falta à ministra perspectiva histórica. O manto de Maria, mãe de Jesus Cristo, é azul-celeste. No início do século passado, azul não era “cor de menino”. Como publicou O GLOBO em sua edição de ontem, o azul tinha antigamente a delicadeza como mensagem. E o rosa era a cor masculina. Por se parecer com o vermelho do sangue, passava a ideia de força. Mudaram as mensagens e os tons com o tempo. Meninos e meninas aprenderam nas últimas décadas, com o avanço dos costumes, que podem ser delicados e fortes, sensíveis e poderosos. Vamos tentar não mudar isso aí, ok?
Hoje, tenho um casal de netos. A menina, com 5 anos, já passou da fase de adorar cor-de-rosa e princesas. Hoje ela me diz: “Não gosto mais de princesas. Gosto de super-heróis e heroínas. O lugar de menina, vó, é onde ela quiser.” Nina ama a Estelar, a Mulher-Maravilha e a Batgirl. E os Detetives do Prédio Azul. Tom está com 11 meses e gosta mesmo de...bola. Bolas de todas as cores, sem preconceito. Aleluia.
Ruth de Aquino é jornalista
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