De vez em quando, ouço Luiz Melodia, que sempre me apoiou
nas campanhas claramente perdidas, antes mesmo do começo. O verso foi escrito
num contexto amoroso, no qual os amantes se esquecem do mundo. Infelizmente,
não posso seguir o amigo, nesse verso de “Pérola negra”.
Minha tarefa é exatamente procurar lembrar em que ano
estamos. Não é fácil. Para quem viveu longamente, muitos anos disputam o lugar
de modelo, referência para compreender o que se passa. Pouco servem diante da
singularidade de 2019.
A chegada de um novo grupo ao poder trouxe consequências
imprevistas. O novo chanceler Ernesto Araújo escrever que o aquecimento global
é uma invenção do marxismo global.
Não conheci Osvaldo Aranha, embora tenha visitado seu túmulo
no Sul. Entrevistei, ainda jovem, Augusto Frederico Schmidt, leio
constantemente sobre a trajetória de Afonso Arinos, San Tiago Dantas. E há
ainda os grandes diplomatas de carreira. Nenhum desses homens, creio, seria
capaz de se antepor tão ousadamente às evidências científicas colhidas pela
humanidade.
Araújo é um intelectual. Fiquei até agradecido por
aconselhar a leitura de Clarice Lispector. Não sei bem o que ela estava fazendo
no seu discurso. Mas é sinal de bom gosto. A própria Clarice ficaria perplexa
como se estivesse diante de um búfalo ou de uma galinha.
Realmente, tenho de me esforçar muito para entender a
política ambiental de Bolsonaro. Antes de partir para Davos, aprovou para o
Serviço de Florestas um homem que quer liberar a caça de animais silvestres no
Brasil.
Esforço-me por entender o universo ético da família do
presidente. Flávio Bolsonaro apegou-se ao foro privilegiado para enfrentar
denúncias de movimentação financeira atípica. Em seguida, soube-se que ele
empregou em seu gabinete a mulher e a mãe de um matador ligado às milícias.
Sua posição sobre as milícias admite que são vantajosas
porque expulsam os bandidos. Isso só pode ser entendido na linha do tempo.
A defesa das milícias nos dias de hoje não pode ignorar que
controlam o gás, parte do comercio imobiliário, do transporte coletivo e até do
tráfico de drogas. E matam muito.
O tempo torna mais aceitável a posição de Flávio. O
desconcertante é que a mulher e a mãe do bandido trabalharam até 2018 no seu
gabinete. E isso num período em que ele já estava na cadeia.
Minha perplexidade aumentou com o decreto de Mourão
autorizando funcionários de segundo escalão a classificar os documentos como
secretos. O projeto deles, com apoio da maioria, era o de combater a corrupção.
O decreto enfraquece precisamente a melhor arma contra esse crime: a
transparência.
Qualquer movimento de volta à opacidade serve apenas para
levantar suspeitas de concentração de poder. Ou de riqueza. A história recente
no Brasil deixou nas mãos da sociedade escaldada pelo menos um instrumento de
defesa, que é a transparência.
O fato de haver muitos militares no governo para mim não tem
conotação negativa. Considero-os uma força moderadora. Mas qualquer recuo na
transparência fica parecendo um enfoque militarizado do governo.
Mourão afirmou que o decreto já estava pronto no governo
Temer. Levamos anos discutindo essa lei de acesso. Se o decreto tinha mesmo uma
justificava racional, por que não discuti-lo?
Estou muito velho para ficar desapontado, reclamando de
governos. Mas nem tanto para iniciar um leve combate agora que estou com a
carteira praticamente vencida.
Por que conciliar com a ignorância humana que pode arruinar
nossos recursos naturais? Por que aceitar um recuo na lei da transparência que
ajudei a construir na Câmara?
Espero que os eleitores de Bolsonaro não fiquem muito
zangados. Nada contra eles. O que penso sobre milícias, transparência e
aquecimento global não depende tanto de eleições. A ideia não é conhecer a
verdade e se libertar através dela? A minha é essa: milicianos são criminosos,
o planeta está se aquecendo, e não há nada mais suspeito do que golpear a
transparência.
Artigo publicado no jornal O Globo em 28/01/2019

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