Ter o mais belo museu a céu aberto do mundo e uma estrutura
de hotéis e restaurantes sugere o novo caminho
De novo em Brumadinho, desta vez para falar de reconstrução,
como em Mariana. A cidade tem dois polos: cultura e mineração. O Museu de
Inhotim, erguido no meio de um lindo pedaço da Mata Atlântica, pode ser um
dínamo desse processo. Recebe 350 mil pessoas por ano e reabriu neste fim de
semana. Nele trabalham 600 pessoas.
Se os artistas brasileiros quiserem dar uma força, é
possível fazer a cidade transitar da hegemonia da mineração para se tornar um
centro cultural. Será preciso apenas esquecer as diferenças ideológicas. Certos
temas de união nacional ajudam até a lidar com as divergências.
Não sou especialista em barragens. Os engenheiros pensam
coisas claras. Um deles sugeriu que a barragem se rompeu por liquefação. Desde
esse momento, levei a serio a hipótese.
Agora, fico sabendo que a barragem de água estava a montante
do minério armazenado. Vazava constantemente. A Vale construiu um cano para
desviar essa água. Mas será que foi suficiente? Os sensores funcionavam mal, e
faltavam cinco deles.
O atestado de estabilidade dado pela empresa alemã TÜV SÜD
tratou desse tema. E parece que houve pressão para que os alemães transigissem:
ou davam o atestado de estabilidade ou seria rompido o contrato com a Vale.
Indo um pouco adiante, como detetive amador, lembro que a
barragem de água estava tão cheia que ameaçou romper após o desastre. No
domingo de manhã, a sirene tocou por lá, pelo perigo da barragem de água.
Possivelmente, a mesma sirene que silenciou diante do tsunami de lama. Nesse
caso, enganada pela insuficiência dos sensores. Diante de tais circunstâncias,
não é correto dizer, como disse a Vale, que a barragem de rejeitos era de baixo
risco e grande poder de dano. Ela era de alto risco.
Essa é a conclusão de um ignorante esforçado. Quando a Vale
disse que o desastre era inexplicável, ela estava de posse de todos os dados,
tanto que tentava desviar o curso da água.
Espero que os fatos confirmem esta hipótese, pois, até
agora, não consegui ouvir alternativas. Houve uma fake news, na época do
desastre, dizendo que explodiram uma bomba. Um venezuelano e um cubano teriam
sido presos. E não é que circulou. Os venezuelanos não têm bombas para uso
externo: estão à beira de uma guerra civil.
Apesar de tudo, espero que a Vale participe do esforço de
reconstrução, sem ambiguidades como em Mariana. Seria aprender a operar num
espaço estrategicamente mais valioso que suas minas de ferro.
A entrada de Brumadinho é feinha e encardida. Na cidade, há
um conjunto de painéis pintados por artistas brasileiros. Foi uma parceria da
Vale com a prefeitura. Os painéis perderam a cor, foram degradados pelo
descaso, alguns parecem uma colagem de minério de ferro.
A ideia geral era esta: já que produzimos minério, por que
se importar com a beleza? Em outras palavras: já que vai sujar mesmo, por que
manter limpo?
Antes do desastre, fui a Brumadinho uma única vez. Na época,
para a palestra de fundação do Partido Verde, que hoje, quem diria, é o partido
do prefeito. Não o conheço bem. Apenas o entrevistei sobre os fatos correntes.
Mas, se pudesse dar um palpite, diria que o futuro de Brumadinho deveria se
concentrar numa ideia simples: entra a beleza, sai a feiura.
As mineradoras costumam deixar apenas buracos, quando não
levam as montanhas, como levaram o Pico do Cauê, na Itabira de Drummond.
Ter o mais belo museu a céu aberto do mundo e uma estrutura
de hotéis e restaurantes sugere o novo caminho, que nem merece ser chamado de
economia criativa: é uma decorrência lógica. Seria preciso um novo marco
regulatório para exploração de minério numa área onde a cultura tem um grande
papel. Brumadinho tem lindas estradas vicinais com áreas preservadas. Os 300
hectares enterrados na lama são apenas uma pequena parte de um município maior
do que Belo Horizonte. Seu bairro mais atraente, Casa Branca, está no pé da
Serra do Rola Moça, um parque estadual. É um belo roteiro, que pode florescer
no futuro.
Em Casa Branca, onde há muitos moradores fugidos do estresse
da grande cidade, há um movimento de defesa da águas em permanente choque com a
mineração. O que alguns mineradores chamam de Quadrilátero Ferrífero é, na
verdade, para os moradores um quadrilátero aquífero.
Há um passado e um futuro para Brumadinho. Hora de virar o
jogo.
Artigo publicado no jornal O Globo, em 11/02/2019

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