Andei pensando em demitir Bolsonaro desta coluna. O papel em
que ela é impressa não tem a gramatura necessária para absorver as lambanças
que lhe saem pela boca. Além disso, o jornal é um objeto que entra nas casas de
família e costuma ser lido ao café da manhã. Não pega bem ficar citando um
elemento que, depois de recomendar lavar
o pênis com água e sabão, como fez há tempos, acaba de sugerir que se
faça cocô
dia sim, dia não. Como Bolsonaro só fala para seus eleitores, esta deve ser
a ideia que ele faz deles —gente que não sabe se cuidar direito.
É preciso também considerar as crianças. Um jornal pode ser distraidamente
deixado aberto, em cima da mesa, ao alcance delas —e quem pode prever as
consequências da exposição de uma frase de Bolsonaro a uma criança? Você dirá
que ele está à solta na televisão e as crianças podem vê-lo sem querer. É
verdade, mas, nesse caso, cabe aos pais retirá-las da sala quando farejarem que
ele vai aparecer.
É uma prerrogativa dos colunistas escolher sobre quem desejam escrever. Seja
como for, o critério deve ser sempre jornalístico. E Bolsonaro há muito deixou
de oferecer surpresa. Pode-se apostar que, todo dia, irá disparar suas
barbaridades, mas contra os alvos de sempre: a Amazônia, as reservas indígenas,
os direitos humanos, o desarmamento, a imprensa. E está ficando repetitivo
—depois do cocô dia sim, dia não, veio agora com o cocô
petrificado. Fezes não saem de sua mente. Já me perguntei: por que ele não
faz algo realmente radical e tira as calças pela cabeça na frente de um
general?
Mas, agora, podemos ter novidades. Em nome de um nacionalismo ardiloso e
velhaco, Bolsonaro começou a insultar certos países estrangeiros. Uma coisa é
bater numa árvore —a árvore não bate de volta. Outra coisa é falar grosso com a
Europa.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen
Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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