Da queda
de Dilma Rousseff para cá, é sempre temerário falar em clima ameno
no Twitter. A
polarização política brasileira, porém, que atingiu nos últimos dias alguns de
seus picos mais agudos, transferiu-se, por assim dizer, para os pampas. Mais
exatamente para a Argentina, que foi o Assunto do Momento na plataforma.
No início da tarde de segunda (12), nada menos que 467 mil
tuítes discutiam a reviravolta política no país vizinho —com a vitória
surpreendente da oposiçãonas primárias para a eleição presidencial—,
superando de longe as novas revelações da Vaza-Jato (46,9
mil menções a “Deltan”) e a última
ofensa dirigida a um jornalista pelo presidente @jairbolsonaro (44,4
mil menções a “mané”). E o Fla-Flu político brasileiro encarnou num clássico
Boca X River.
A ex-presidente brasileira deu o pontapé inicial: @dilmabr
“A vitória da chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner nas prévias
presidenciais é uma luz no fim do túnel para o povo argentino e para a América
Latina e um enorme alento para todos que lutamos pela democracia. Triunfo
animador das forças progressistas sobre o neoliberalismo.”
Na sequência, a líder do governo na Câmara entrou em campo
para evitar analogias com o Brasil: @joicehasselmann “A chapa Kirchner venceu
as prévias na Argentina e já
impactou no nosso mercado financeiro. Dólar chegou a 4 reais e bolsa
despencou 2%. Macri foi derrotado pela economia: deixou de realizar reformas
como deveria. Fica a lição.”
O deputado federal pelo PSOL-SP rebateu a colega:
@IvanValente “Macri fez tudo o que o mercado mandou, inclusive uma reforma da
Previdência, o resultado foi uma brutal crise econômica na Argentina. Agora
começa a ser punido pelo voto. O que resta ao mercado, chantagear o povo.
Bolsonaro como todo entreguista faz coro com os especuladores.”
Um colunista da Veja registrou a manifestação, feita na véspera,
por um ilustre torcedor brasileiro: @BlogdoNoblat “Logo ontem quando tudo já
indicava que Maurício Macri levaria uma surra histórica nas eleições primárias
da Argentina, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resolveu apoiá-lo.
Uniu-se a Bolsonaro na derrota. Que falta de sorte!”
O próprio Bolsonaro lamentaria
o placar mais tarde, em entrevista que repercutiu no Twitter. @JornalOGlobo
“Bolsonaro diz que argentinos fugirão para o Brasil se ‘esquerdalha’ voltar ao
poder no país vizinho.”
Para a repórter especial da InfoGlobo e ex-correspondente em
Buenos Aires o “se” já se configura como bastante provável: @janafig
“Jornalistas argentinos comparam a transição entre Macri e Fernández com a de
Lula e FHC. O fim de Macri já foi decretado pela mídia local.”
Hipótese que fez o comentarista do Manhattan Connection,
@caioblinder, cantar um tango triste: “Claro que é de chorar pela Argentina
quando a gente constata ser impossível enterrar o peronismo; o movimento mostra
sobrevida para enterrar a Argentina.”
Já o correspondente da GloboNews em Nova York, @gugachacra,
lembrou dos anos 1990 para mostrar que não é tão fácil assim entender o jogo
jogado na casa dos hermanos: “Menem defendia relações carnais com os EUA e até
conquistou para a Argentina o inútil status de ‘aliado extra-OTAN’. Ele se
aproximou de Israel e tinha um super ministro defensor de privatizações. Até
dolarizou a economia. Era Menem, um PERONISTA.”
DELTAN NA FRIGIDEIRA
Às vésperas da decisão do Conselho Nacional do Ministério
Público sobre pedido de afastamento de Deltan Dellagnol, marcada para hoje
(13), tuiteiros discutiam as novas revelações da Vaza Jato.
A médica e deputada federal @jandira_feghali protestou em maiúsculas: “Desrespeito total com Teori! UM DIA após a morte do ministro do STF, Deltan já se movimentava para INFLUENCIAR NO SUBSTITUTO. VERGONHA!”
A médica e deputada federal @jandira_feghali protestou em maiúsculas: “Desrespeito total com Teori! UM DIA após a morte do ministro do STF, Deltan já se movimentava para INFLUENCIAR NO SUBSTITUTO. VERGONHA!”
O Twitter do movimento Vem
Pra Rua Brasil manteve a campanha pelo procurador: @VemPraRua_br “Só
quem deve muito na praça (e tem medo de ser pego) tem medo de Deltan na PGR.
#DeltanNaPGR”
No meio da fervura, @jairbolsonaro deixou claro que o
principal aliado de seu ministro da Justiça @SF_Moro, não terá sua indicação ao
cargo de Procurador Geral da República. Num post de resposta a uma seguidora, o
presidente compartilhou link para a página do Facebook Bolsonaro Opressor 2.0,
que dizia: “Pra quem pede o Deltan Dellagnol na PGR... O cara é esquerdista
estilo PSOL”.
PARA A POSTERIDADE
O próprio repórter da Folha em Brasília fez
questão de compartilhar o vídeo em que @jairbolsonaro o xinga, no domingo, por
causa de uma pergunta: @bernardocaram “O dia que o presidente da República me
chamou de mané. Bolsonaro diz que a Folha quer estragar o Dia
dos Pais porque perguntou sobre a avó da primeira dama, que estava desassistida
em hospital público.”
DIRETOS DE DIREITA
A virtual demissão por Sílvio Santos da apresentadora do SBT
Brasil Rachel Sheherazade, ex-apoiadora que se voltou contra o bolsonarismo e
que teria
encerrado sua influente conta no Twitter a pedido do “patrão”, foi
celebrada pela bolha governista.
O empresário @luciano_hang, dono da Havan, patrocinador do
SBT, que pediu a cabeça da jornalista semanas atrás, tripudiou: “Ué, estou
procurando o Twitter da Rachel Sheherazade e não estou achando. Alguém sabe o
que aconteceu?”
A feminista
arrependida e atual coordenadora de Políticas para Maternidade do Ministério da
Mulher, da Família e dos Direitos Humanos @_SaraWinter deu uma
explicação extravagante para o fato: “A esquerda acusando Silvio Santos de
censurar Rachel Sheherazade por ela tecer críticas ao Governo Bolsonaro. Mas na
verdade ela está sendo punida por ter feito graves acusações e ofensas aos
agentes penitenciários brasileiros. Não caia na desinformação da esquerda!”
Uma das poucas exceções foi o youtuber
e deputado estadual pelo DEM-SP @arthurmoledoval, do site Mamãefalei e
membro do Movimento Brasil Livre (MBL), que discordou: “Padre
Fábio de Melo e Rachel Sheherazade abandonaram o Twitter após serem
veementemente atacados por darem opiniões. Esse tipo de ataque raso (feito pela
esquerda ou pela direita) só atrapalha a sanidade do debate político...”
Ivan Marsiglia
Jornalista e bacharel em ciências sociais, Ivan Marsiglia é
autor de “A Poeira dos Outros”.

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