Às vezes, tenho uma
fantasia de deixar tudo por um tempo: escrever um livro numa pequena cidade
costeira de Portugal ou me internar na Mata Atlântica, para fotografar bichos e
plantas nas horas vagas. Apenas uma fantasia, fruto dos ásperos tempos em que vivemos.
Não consigo deixar o Brasil, seguir as tramas, ainda que nem sempre on-line.
Entre outros, o tema
que me preocupa é a política ambiental. Não especialmente as frases
provocativas de Bolsonaro. Sei distinguir a retórica da realidade.
Nas últimas semanas,
sinto crescer no governo, inclusive entre generais, uma forma de tratar a
Amazônia com um tom nacionalista e até mesmo agressivo que, certamente, terá
consequências.
A Noruega, no
discurso desses setores militares, é a vilã do momento. O discurso do governo é
de que a Noruega não pode criticar o Brasil, porque extrai petróleo no Ártico,
mata baleias e uma empresa norueguesa provocou um desastre ambiental em
Barcarena, no Pará.
Tudo isso é reação à
tentativa da Noruega e da Alemanha de manterem o espírito do Fundo Amazônia,
que financia projetos sustentáveis na região. Creio que está se perdendo o
sentido do problema ambiental em escala planetária, que demanda muito mais a
cooperação entre os países do que a troca de farpas.
A Noruega e a
Alemanha se interessam pela Amazônia porque estão investindo ali e precisam dar
satisfação aos seus contribuintes.
Num quadro tão
delicado como o do aquecimento global, não se devem suprimir críticas entre
países: existem canais próprios para isso. A tática de se defender apontando os
erros dos outros não funciona. A França fez explosões nucleares na Polinésia, a
Inglaterra caça raposas. Seria um processo interminável.
É uma tática que
lembra o processo de corrupção no Brasil, onde os partidos atingidos lembravam
sempre os erros dos outros. A tese é essa: se todos fazem, por que não fazer
também?
Existe um grande
interesse internacional pela Amazônia. Muitas pessoas são ligadas afetivamente
à região porque a consideram vital para o planeta. Não há razão para ter
ciúmes, mas sim tirar proveito dessa onda positiva.
Bolsonaro diz que a
Amazônia é uma virgem que muitos querem violentar. Acrescentou que vai permitir
o garimpo na região. Isso não me assusta tanto. Nenhum governo conseguiu
proibir ou mesmo fiscalizar o garimpo na Amazônia.
Se formos agora ao
pequeno aeroporto de Laranjal do Jari, veremos os aviões chegando e partindo
para o garimpo. Entrevistei um garimpeiro que já sofreu cinco desastres aéreos
na floresta. Hoje é pastor, mas continua garimpando.
Bolsonaro afirmou
que quer atrair empresas americanas para explorar minério na Amazônia. É um
problema. Não porque sejam americanas. Poderiam ser japonesas, sul-africanas,
não importa.
O modelo de
desenvolvimento está em jogo. De fato, iniciativas sustentáveis ou mesmo formas
pré-industriais de atividade econômica não representam uma saída única para a
Amazônia.
No Brasil, e também
nos Estados Unidos, a defesa do meio ambiente é associada à esquerda, a uma
visão anticapitalista. Isso explica parcialmente a reação agressiva de
Bolsonaro. No discurso da extrema direita, o aquecimento global é uma invenção
marxista; os dados do desmatamento, uma armação contra o Brasil.
No entanto, é
possível discutir uma saída dentro do capitalismo para a Amazônia, confrontando
duas linhas. Uma delas é usar o conhecimento e a biotecnologia para manter e
valorizar a floresta em pé. A outra é enfatizar o lado tradicional da economia,
com mineração intensa, criação de gado, industrias.
Na verdade, não são
totalmente excludentes. Mas a escolha da primeira linha como hegemônica tem a
vantagem da sustentabilidade, recompensa o saber tradicional das comunidades.
O projeto amazônico
de Bolsonaro, que parece ter ressonância nas Forças Armadas, pode nos conduzir
a um isolamento internacional, boicote de nossos produtos, uma derrota política
e econômica.
Sem contar com o
principal efeito negativo: a perda da biodiversidade, os reflexos no próprio
clima. O agronegócio já percebeu a resistência externa a esta opção do governo.
Por enquanto, teme a perda de mercado. Com o desmatamento, vai se dar conta da
perda das chuvas.
Essa é uma das
muitas razões para resistir.
Artigo publicado no
jornal O Globo em 12/08/2019

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