Você já viu. Um russo inventou um aplicativo com um filtro
chamadoFaceApp,
capaz de transformar um rosto, simulando como ele ficará depois
de velho. O dispositivo faz também a pessoa rejuvenescer, sorrir, parecer
irritada, com ou sem cabelo e barba e até se transformar no sexo oposto. Muito
convincente. E, pelo visto, também muito fácil de manipular.
Por causa dessa facilidade, pode-se pensar que sempre se
manipularam fotos. Mas os veteranos da fotografia sabem que não era assim. Nos
anos 80, trabalhando na Playboy, eu ia xeretar o trabalho do editor de arte
Carlos Grassetti, de retocar as estrias, celulites e cicatrizes das gloriosas
garotas do pôster. Grassetti fazia isso a pincel, no fotolito, e era um mestre,
mas a ilusão parava aí. Não havia como lhes dar formas que elas já não
tivessem.
Na recente comemoração dos 50 anos da chegada à Lua, os
exóticos voltaram a acusar a Nasa de ter manipulado as fotos dos astronautas em
solo lunar. Mas, desta vez, os profissionais reagiram —com as imagens
capturadas ainda no velho negativo, a manipulação seria facilmente perceptível,
de tão rudimentar. E as fotos, pelas circunstâncias, eram excepcionais.
Se, digamos, em 1980 e 1969, era assim, o que dizer dos idos
de 1890, quando parece ter sido feita a famosa foto de Machado de Assis que,
segundo alguns, foi manipulada para torná-lo branco? É uma tese, mas eu
gostaria de saber como teriam feito isto. O filme fotográfico acabara de ser
inventado e era de baixíssima sensibilidade. Como ainda não existia o flash, a
exposição à luz tinha de ser demorada —daí não só as pessoas, mas as fotos
inteiras daquele tempo saírem, como se diz, lavadas.
Talvez por isso, no retoque que uma agência de propaganda
fez na foto para tornar Machado efetivamente negro, eles tenham aproveitado
para escurecer o seu paletó —que, pelo visto, também fora manipulado para
parecer mais claro.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen
Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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