A crise que ameaça dizimar o PSL expôs as entranhas do
governo de Jair Bolsonaro e de seus filhos, que ao abrirem fogo contra o
partido no qual estavam abrigados evidenciaram os desencaixes e atritos que a
embriaguez provocada pelo sucesso eleitoral teimava em ocultar.
Até as eleições de 2018 o PSL era um pequeno feudo
controlado por Luciano Bivar. A vitória nas urnas foi bombástica e o partido
tornou-se a segunda maior bancada da Câmara, repleta de deputados eleitos no
embalo de Bolsonaro. Permaneceu como um agregado sem visão de mundo clara,
sendo levado a trafegar pela direita para acompanhar as circunstâncias.
Insinuou-se como base de um governo que carecia de sustentação parlamentar.
O crescimento não é processo indolor. Nos partidos políticos
costuma vir acompanhado da ampliação das disputas internas por espaços de poder
e influência, que invariavelmente se traduzem em lutas pelo controle da máquina
partidária, a começar do diretório nacional e chegando aos cargos de liderança
em âmbito estadual e no Legislativo. As alas mais fortes tendem a subordinar as
demais.
Bastou que o clã Bolsonaro apresentasse suas pretensões
imperiais, e o fizesse com a delicadeza e a sutileza que o caracterizam, para
que o PSL começasse a soltar fumaça por todas as ventas. A sujeira veio para
fora de uma só vez.
O atrito repercutiu no heterogêneo território da extrema
direita, uma força que crescia desde o governo Dilma Rousseff e foi
repentinamente projetada para o primeiro plano da política nacional. De
emergente que era, o movimento ganhou musculatura e autoconfiança, ingredientes
com os quais passou a se sentir “dono do País”.
Acontece que a extrema direita no Brasil nem de longe se
aproxima de suas congêneres europeus e norte-americanos. Faltam-lhe, antes de
tudo, uma doutrina, um pensamento, um grupo de intelectuais minimamente
qualificados, órgãos de divulgação e formação de quadros. A própria base
material em que opera lhe é adversa: não há imigrantes, estrangeiros
“perigosos”, ameaças iminentes à “Pátria imaculada”, o supremacismo não casa
com a sociedade brasileira, o racismo não provoca orgulho em ninguém. Sua casa
são as redes sociais, onde ela deita e rola, os templos evangélicos e os
bolsões fanatizados de lealdade ideológica. Seu negócio é a guerra cultural e a
retórica agressiva.
A extrema direita brasileira concentrou-se em questões
morais – família, religião, valores, tradições, comportamentos, sexualidade – e
em apelos apopléticos contra a esquerda, a social-democracia, o demônio, a
corrupção, a “velha política”, o ambientalismo, a globalização, temperando tudo
com uma mistura esquisita de “autoridade estatal” e ultraliberalismo econômico.
Encontrou nesses pontos sua força e seu limite. O mix de temas mostrou-se
indigesto demais, dificultando a coesão do movimento, que evoluiu sem rumo à
espera do que Bolsonaro faria enquanto “mito”.
A cada mau passo do governo, o movimento estremece. A
conduta beligerante do clã Bolsonaro excitou a extrema direita tanto quanto a
confundiu. O mal-estar cresceu à medida que a família presidencial apresentou
suas pretensões de acúmulo de poder e autoproteção, abandonou a luta contra a
corrupção e incorporou as mesmas práticas antes atribuídas à “velha política”,
num quadro em que o governo pouco realiza em termos políticos, econômicos e
administrativos.
Uma tempestade perfeita começou assim a se formar. O governo
governa mal e pouco. Agora, já não dispõe de um partido leal. A falta de coesão
da extrema direita é um complicador. O clã Bolsonaro não se mostra com
liderança à altura para utilizar de forma adequada os recursos de poder de que
dispõe. Quer tudo e mais um pouco. Obriga-se a entrar na “velha política”, mas
não sabe nela se mexer: é um elefante na cristaleira. Permanece sem um
pensamento, uma proposta. Tem os olhos grandes, mas só enxerga o próprio
umbigo.
Flerta com o haraquiri ao comprar briga com o partido que o
sustentava na Câmara e deveria ter sido tratado como reserva de valor, seja
para o governo conseguir governar, seja para que o clã se saia bem nas eleições
municipais de 2020 – base para que possa cogitar de sua reprodução em 2022.
Bolsonaro cava uma trincheira para proteger seu crescente isolamento, fato que
faz seu governo flertar com a crise institucional. Planta ventos e fogueiras.
Poderá levar o País a um beco sem saída.
O PSL apostou em escalar a crise. Ameaçou seguir a ideia do
deputado paulista Júnior Bozzella, que declarou que a “missão” do partido seria
“salvar o Brasil dos filhos do presidente”. Os bolsonaristas, porém, suaram a
camisa e avançaram. Por ora, há um grito parado no ar. Armistícios
protocolares, no entanto, não serão suficientes para que se tenha paz
duradoura. Inexistindo densidade política ou ideológica na disputa, a guerra se
arrastará como uma boa briga de vizinhos para saber quem espalhou a pior
fofoca.
Controlar o PSL faz parte de uma manobra maior. Sem ter
ideias consistentes, sem conseguir competir com o Congresso na condução de uma
agenda reformadora, o clã Bolsonaro precisa exibir suas posses. Dominar um
partido despedaçado é sonhar com um simulacro de poder absoluto. Pode servir
para intimidar adversários e coagir aliados, mas não será suficiente para dar
um eixo à extrema direita ou melhorar o desempenho do governo. É um poder de
fancaria. Tanto que a caravana continua a girar, conduzida pelo Congresso, que
é de fato o poder que tenta governar o País.
Depois de uma tempestade perfeita, não há certeza de
bonança. Sem adequada correção dos estragos, a crise espalhará seus venenos
pelo sistema, que já anda bastante abalado. Tempestades desse tipo, porém, podem
trazer alguma depuração, como janelas de oportunidade que permitam às pessoas
enxergar o mundo com mais generosidade e cuidado.
É para onde devem estar a olhar os democratas.
*Professor titular de teoria política da Unesp

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