Mesmo antes de Dom João VI aportar aqui em 1808, os
políticos brasileiros já enfrentavam crises e travavam ásperas discussões em
torno de programas e ao redor de ideias. Mas nunca na forma exuberante que se
vê hoje. Jamais se desceu a ponto tão baixo, nem mesmo nas ditaduras de Getúlio
Vargas e dos generais de 1964, tampouco com Collor de Mello, e em tempo algum
os desacertos provocaram tanto espanto e tantas risadas como agora. Vivemos uma
das maiores tragicomédias da nossa história. O Brasil está de ponta-cabeça, de
estômago embrulhado, muito mais do que apreensivo, é verdade, mas ainda assim
rindo aos borbotões.
As asneiras e sandices que se leem e se ouvem quase
diariamente em torno da família do presidente Bolsonaro são tão inusitadas
quanto ridículas e engraçadas. Como se conseguiu queimar tantas pontes,
arranjar tantos inimigos e desconstruir tantos entendimentos em apenas dez
meses de governo? Trata-se de um recorde negativo que deveria ser considerado
pelo “Guinness”. O primeiro governo a se desmilinguir em menos de um ano por
absoluta inépcia política. E se não bastasse ter afugentado os que votaram nele
para se livrar do PT, que são milhões, o presidente agora trata de afastar o
maior partido da sua base. Talvez o único que lhe seja inteiramente fiel e
tenha a sua cara.
Depois de semanas de bate-boca com o presidente do PSL,
deputado Luciano Bivar, ameaçando sair do partido, Bolsonaro vem a público para
dizer que não vai se meter no assunto. “Tô calado e vou continuar calado”,
disse o homem que jamais se cala, que usa as redes sociais para fazer o que ele
acha ser contato direto com seus eleitores e tem um programa semanal em que
fala, e fala o que lhe der na telha, sem medir qualquer consequência. E além
disso, o mais opaco presidente da História do Brasil diz ser transparente. Só
rindo.
Apesar de tantos episódios inacreditáveis, vemos agora esta
troca de mensagens de quinta categoria nas redes sociais entre o vereador
Carlos Bolsonaro e o senador Major Olímpio. Não, em nada importa para o país o
que esses dois homens escreveram em suas contas no Twitter, mesmo que um seja o
filho-problema do presidente da República e outro seja líder do maior partido
governista no Senado. Sempre em torno do PSL e das suas contas, Carlos e
Olímpio mostraram os dentes. Ambos têm razão. O vereador se acha um príncipe, e
o senador se presta ao papel de bobo da corte ao descer para conversar com
Carlos em seus termos. Não vale a pena falar de cadela no cio ou de internação
psiquiátrica, acusações que fizeram parte da beligerância entre o príncipe e o
bobo.
O fato que não consegue ser afastado, contudo, é que o PSL
tem que explicar suas contas e seus laranjais. E Bolsonaro também. As
investigações, que já vasculharam a casa e o escritório de Luciano Bivar e
indiciaram o ministro que não tem sobrenome, Marcelo Álvaro Antônio, do
Turismo, mostram que os seus métodos não diferem muito do que se viu na
política nacional até aqui. O presidente do partido está enrolado. O presidente
da República tem um ministro também enrolado que ele teima em manter no posto,
apesar do discurso de honestidade feito durante a campanha e reiterado cem
vezes ao longo dos últimos dez meses.
O colunista Elio Gaspari tem toda a razão. Ele escreveu
aqui, ontem, que Lula pode fazer diferença nessa mediocridade generalizada que
tomou conta da política nacional. Com Fernando Henrique Cardoso fora do jogo
por opção própria, não resta mesmo ninguém além de Lula com estatura suficiente
para fazer sombra a Bolsonaro. Com sua sentença cumprida ou interrompida pelo Supremo,
tanto faz, Lula sairá da cadeia muito brevemente. E daí, salve-se quem puder, o
circo tem tudo para pegar fogo.
Human Rights Watch
Maria Laura Canineu não parecia abismada. A diretora regional do Human Rights Watch é brasileira e sabe muito bem como a banda toca. Já o presidente da instituição, Kenneth Roth, não conseguia esconder a estupefação. Falava como se estivesse na Guiné Equatorial de Teodoro Obiang, com todo respeito aos guinéus. Numa entrevista concedida ontem em São Paulo, Roth comparou o Brasil a Egito, Turquia e Indonésia, países que endureceram depois de eleger um presidente autoritário. E aos Estados Unidos de Trump.
Maria Laura Canineu não parecia abismada. A diretora regional do Human Rights Watch é brasileira e sabe muito bem como a banda toca. Já o presidente da instituição, Kenneth Roth, não conseguia esconder a estupefação. Falava como se estivesse na Guiné Equatorial de Teodoro Obiang, com todo respeito aos guinéus. Numa entrevista concedida ontem em São Paulo, Roth comparou o Brasil a Egito, Turquia e Indonésia, países que endureceram depois de eleger um presidente autoritário. E aos Estados Unidos de Trump.

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