Pelo discurso da ministra Damares Alves, mulheres e meninas
que não se identificam com a ideologia praticada por ela e o governo que
representa, todas nós, que somos as inimigas, as impuras, as vadias, temos em
nossa rotina o hábito de enfiar
crucifixos na vagina.
Damares atualizou o check list da mulher que não reza a
cartilha do conservadorismo. Entre todas as tarefas, que incluem trabalho,
escola, filhos, afazeres domésticos, academia, terapia para aguentar tanta
gente louca, tem também o momento “crucifixo da vagina”. Porque, claro,
feminista que se preze não pode pular essa parte do ritual.
Para quem tem a sorte de não saber tudo o que acontece no
Brasil de Bolsonaro e de seus ministros aloprados, a ministra foi uma das
palestrantes mais aplaudidas do CPAC
Brasil (Conferência de Ação Política Conservadora).
Em tom de pregação, Damares solta esta maravilha: “Estou
aqui há 24 horas e ninguém me ofereceu ainda um cigarro de maconha e nenhuma
menina introduziu um crucifixo na vagina...”
Liberdade de expressão é uma maravilha, mas tem dessas
coisas aí. Conheço gente que sob efeito de maconha não falaria uma bobagem
dessa.
Mas de onde a ministra tirou isso? Dos livros de Simone de
Beauvoir, da Chimamanda Ngozi, das séries da Lena Dunham? Será que tem curso?
Introdução à Introdução de crucifixo na vagina? Nada disso.
Em 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude com o Papa
Francisco, a Marcha
das Vadias ocupou um trecho da praia de Copacabana, onde o evento
acontecia, para protestar
contra as políticas da Igreja Católica.
A coisa desandou. Um preservativo é colocado na cabeça da
imagem de Nossa Senhora, onde uma das manifestantes simula masturbação. Essa e
outras imagens
sacras foram quebradas. E uma cruz é introduzida no ânus de um homem. Sim,
isso aconteceu.
O casal envolvido chegou a ser indiciado pelo Ministério
Público Estadual, do Rio de Janeiro, pela prática de ato obsceno em local
público e de preconceito de religião.
As organizadoras da Marcha, por meio de nota, lamentaram a
ação do casal e afirmaram que nada daquilo tinha sido programado pelas
responsáveis pelo protesto.
Tudo foi fotografado, gravado e ganhou as redes sociais. O
mesmo episódio já foi usado inúmeras vezes para difamar feministas e até
paradas LGBTQI+.
É comum ver gente reduzindo a importância histórica do
feminismo e mesmo a nova onda do movimento apelando a casos isolados e, sim,
lamentáveis, como fez a ministra Damares.
Manifestantes extremistas existem em todos os movimentos. Na
maioria das vezes prestam desserviço às suas próprias causas ao escolherem
ações, bandeiras, discursos que, além de não promover nenhum tipo de mudança,
despertam antipatia e desprezo nos menos sensíveis às demandas sociais, que
essas minorias pouco representam.
O intuito claro da ministra era relacionar um ato nojento,
obsceno e intolerante ao feminismo e, consequentemente, à esquerda, como se o
mundo fosse dividido assim, e à direita estivessem apenas as mulheres cheias de
virtudes.
Ao fazer isso, Damares não ofende apenas as feministas, mas
todas as brasileiras que não rezam por sua cartilha alarmista e demagoga.
Mostra que não é ministra da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos, de todas as brasileiras, mas apenas representante dessa turma
saída lá da Idade Média, que se reuniu neste fim de semana para promover sua
caça às bruxas.
Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

Nenhum comentário:
Postar um comentário