O presidente Jair Bolsonaro gastou a manhã de ontem para
realizar um sonho de consumo: comprar uma moto. Glamourizadas por Hollywood em
filmes como O Selvagem, com Marlon Brando e Lee Marvin, e Sem Destino, com
Peter Fonda, Denis Hopper e Jack Nicholson, as motocicletas são símbolos de
rebeldia e liberdade, além de um perigoso meio de transporte. Muitas empresas
proíbem seus executivos de andarem de moto, hobby de fim de semana de muitos
homens e mulheres de meia idade que querem se sentir eternamente jovens. Nas
agruras do trânsito, eis o lema do motociclista: é melhor ser feliz do que ter
razão.
Na política como ela é, a polêmica criada pelo deputado
Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sobre o Ato Institucional nº 5, cuja reedição
aventou num caso de hipotética radicalização da oposição, apesar de rechaçada
pelo presidente Jair Bolsonaro, aumentou o isolamento político do governo junto
aos demais poderes e à sociedade. E reforçou uma polarização política com a
oposição, que antecipa o debate eleitoral de 2022, embora tenhamos apenas 10
meses do primeiro mandato do presidente da República. Essa polarização, porém,
é artificial. Está descolada do processo político institucional, que se
desenrola em dois níveis: as articulações do Congresso para a aprovação das
reformas e a preparação das eleições municipais.
No plano político nacional, as questões mais substantivas
estão se resolvendo com a aprovação das reformas pelo Congresso, no rastro de
um programa de mudanças iniciado no governo Temer (nova Lei das Estatais, Teto
de Gastos e a Reforma Trabalhista). A recente aprovação da reforma da
Previdência pelo Congresso, abriu caminho para a reforma administrativa que o
governo promete anunciar ainda nesta semana. A reforma tributária, que estava
na fila para aprovação, foi engavetada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes,
por falta de massa crítica na própria equipe econômica sobre o que fazer.
O presidente Bolsonaro e seus filhos atuam de forma
diversionista em relação à agenda que mais importa para o país. Suas polêmicas
acirram a polarização direita versus esquerda; aparentemente, miram a
consolidação do seu projeto de poder, no caso a reeleição, muito mais do que a
necessidade de modernizar o Estado brasileiro e a nossa economia. Nesse
aspecto, os políticos que lideram o Congresso, entre os quais Rodrigo Maia
(DEM-RJ), presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre (DEM-AP), atuam com mais
responsabilidade, em que pese a campanha permanente dos setores que desejam
desmoralizar o parlamento e defendem soluções autoritárias para os problemas
nacionais.
Polarização
No plano eleitoral, o eixo da disputa política direita versus esquerda é falso. O que estará em jogo não é um terceiro turno das eleições passadas, mas a gestão das prefeituras de milhares de municípios. Mesmo nas capitais, que sofrem mais influência do debate político nacional, essa polarização dificilmente ocorrerá. Quem primeiro sacou essa diferença na oposição foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo estando preso em Curitiba. O líder petista orientou seu partido a lançar candidatos em todos os lugares onde isso for possível, em vez de organizar uma frente de oposição com base nos temas nacionais. Isso reforça o velho hegemonismo petista, é verdade, porém, o futuro do PT em 2022 depende muito de seu desempenho nas próximas eleições municipais.
No plano eleitoral, o eixo da disputa política direita versus esquerda é falso. O que estará em jogo não é um terceiro turno das eleições passadas, mas a gestão das prefeituras de milhares de municípios. Mesmo nas capitais, que sofrem mais influência do debate político nacional, essa polarização dificilmente ocorrerá. Quem primeiro sacou essa diferença na oposição foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo estando preso em Curitiba. O líder petista orientou seu partido a lançar candidatos em todos os lugares onde isso for possível, em vez de organizar uma frente de oposição com base nos temas nacionais. Isso reforça o velho hegemonismo petista, é verdade, porém, o futuro do PT em 2022 depende muito de seu desempenho nas próximas eleições municipais.
É difícil avaliar até que ponto a crise de Bolsonaro com o
PSL, comandado por Luciano Bivar (PE), tem a ver com avaliação semelhante. O
fato é que Bolsonaro não tem, ainda, uma estratégia clara para as eleições do
próximo ano, mesmo nas duas cidades onde é maior a influência da política
nacional. Seu rompimento com o governador fluminense Wilson Witzel, por
exemplo, sinaliza um cenário adverso no Rio de Janeiro, ainda que venha a
apoiar a reeleição do prefeito Marcelo Crivela (PRB). Em São Paulo, o rompimento
com o senador Major Olímpio (PSDL) e a deputada Joice Hasselmann (PSDL),
potenciais candidatos na capital, revela certa desorientação quanto à disputa
pela prefeitura da capital.
Bolsonaro se movimenta como quem deseja ter a liberdade para
apoiar candidatos com os quais se identifique ideologicamente, seu prestígio
lhes garantiria a competitividade. Esse é o perfil, por exemplo, do deputado
federal Hélio Negão (PSL), no Rio de Janeiro. Nesse caso, reproduziria no plano
municipal a mesma estratégia que adotou na sua própria candidatura à
Presidência, rejeitando alianças tradicionais para fazer uma campanha
antissistema, disruptiva. Seria como adotar, nas eleições municipais, o lema do
motociclista feliz. Se isso vai dar certo ou não, é outra história.

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