Os virulentos ataques de Jair Bolsonaro (PSL) contra
a imprensa nos últimos dias expuseram com crueza seu instinto autoritário
e seu desprezo pelos princípios mais elementares do jogo democrático.
Em entrevista a um programa de televisão na quinta (31), ele
disse que mandou as repartições do governo federal cancelarem suas assinaturas
desta Folha. “Envenena o meu governo a leitura”, justificou.
Logo depois, em pronunciamento nas redes sociais, voltou
a atacar
o jornal e fez uma ameaça aos seus anunciantes: “Não vamos mais gastar
dinheiro com esse tipo de jornal. E quem anuncia na Folha
de S.Paulo presta atenção, está certo?”
Embora sua agressividade com a imprensa seja constante desde
a campanha, Bolsonaro vem subindo o tom, e agora se mostra disposto a usar os
poderes do cargo para minar a própria existência dos veículos que o desagradam.
Na quarta (30), o presidente dirigiu
sua fúria ao Grupo Globo, ameaçando não renovar suas concessões de rádio e
televisão quando vencerem em 2022.
Bolsonaro também tomou medidas para acabar com a publicação
de balanços das empresas em jornais e revogar a obrigatoriedade de
divulgação de atos oficiais do governo, deixando claro que seu objetivo com
isso era esvaziar as fontes de receita dos jornais.
Na segunda (28), em vídeo publicado na internet, Bolsonaro
já havia se comparado a um leão
acossado por hienas que o atacam. Algumas delas foram identificadas como
a Folha, a TV Globo, a revista Veja e o jornal O Estado de S.
Paulo.
Ofensas a repórteres que lhe dirigem perguntas incômodas, em
entrevistas nas quais costuma se cercar de seguidores para tentar intimidar
jornalistas, tornaram-se rotina em seu repertório.
O ataque à Globo foi desferido horas após a veiculação de
uma reportagem que sugeriu vínculos do presidente com milicianos acusados
de matar
a vereadora Marielle Franco (PSOL) em 2018.
Bolsonaro não é o primeiro nem será o último governante
brasileiro a criticar a imprensa e expressar insatisfação com o tratamento
recebido dos jornais. É parte do jogo.
Mas ele é certamente o primeiro a transformar a
desinformação em estratégia de comunicação, disseminando notícias falsas,
ofensas e disparates num esforço sistemático para intoxicar o ambiente político
e confundir o debate público.
Desacreditar veículos dedicados ao jornalismo profissional é
parte do método, que visa minar a confiança da sociedade na imprensa não
submissa a seu governo.
Ao agir assim, Bolsonaro revela inclinação totalitária e
submete a enorme estresse instituições desenhadas para impor limites a abusos
de poder e promover a cooperação em prol do bem comum.
Cabe ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal dar as
respostas que os desatinos cada vez mais frequentes do presidente merecem.
Esta Folha continuará onde sempre esteve,
praticando o jornalismo com espírito crítico e independência, e honrando a
confiança nela depositada por seus leitores.

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