Quem já não esteve na situação de receber essa carteirada de
algum interlocutor com ares de autoridade? Houve tempo em que essa relíquia do
passado autoritário e, por que não dizer, paternalista do Brasil tornara-se
mais rara, apesar de jamais ter desaparecido por completo. Eis que, em tempos
de hienas e fricotes nas redes sociais, a carteirada voltou a ser um meio de
vida para o governo brasileiro. Afogado em estultices e falta de competência,
sobrou apenas o bom e velho método de intimidação tropical-lusófona. E aí,
“sabe com quem está falando”?
Dia desses e outros também tenho visto muita gente reclamar
das carteiradas constantes. Muitas são inevitavelmente dirigidas a jornalistas,
cujo trabalho é apurar fatos, mas muita gente no Brasil de hoje — no mundo de
hoje — não gosta de fatos. Fatos muitas vezes são inconvenientes. Por exemplo:
imagine que você tenha ficado preocupada e tenha decidido pesquisar sobre a
Amazônia. Se você fez seu trabalho de forma cuidadosa, leu vários artigos
científicos, aprendeu sobre as minúcias dos pontos de não retorno — os tipping
points a partir dos quais a floresta vira savana —, conversou com cientistas,
ambientalistas e ministros e ministras do Meio Ambiente de governos anteriores.
Se você é economista tem a vantagem de ter passado por um rigoroso treinamento
matemático.
Quem sabe você aprendeu a gostar especialmente de modelos
dinâmicos não lineares, aqueles que retratam a instabilidade do mundo como ele
realmente é. Sendo esse o caso, há uma boa possibilidade de que você tenha
decidido fazer umas contas para traçar cenários sobre a morte da floresta.
Cenários não são certezas, mas ajudam a dar uma boa noção da urgência de certos
problemas. E, bem, se dia sim e outro também você está acompanhando a cobertura
jornalística dos desastres ambientais brasileiros, a Amazônia tem moradia certa
em sua cabeça. Você faz a conta e traça o cenário. Eis que você descobre que o
cenário catastrófico que tantos temem pode estar mais próximo do que muitos
imaginam.
Inevitavelmente, você escreve e publica um artigo sobre a
Amazônia. Evidentemente, alguns cientistas concordarão com seus achados e
outros discordarão deles. Concordar e discordar fazem parte do método
científico, da dialética da descoberta, por assim dizer. Sistemas dinâmicos não
lineares, comumente chamados de sistemas dinâmicos complexos, são fascinantes
pelo alto grau de instabilidade e imprevisibilidade. São, por essa razão, um
prato cheio para o debate científico. Mas,
Vejam, o pensamento linear, quando bem embasado por vetores,
matrizes e álgebra linear, pode ser bastante sofisticado. Mas o pensamento
linear unidimensional baseado em crendices, teorias conspiratórias e pitadas de
magia pueril nada tem de interessante. Tem, sim, o poder destruidor. E, é
claro, não consegue resistir à carteirada. Como assim você produziu um cenário
de que não gostamos? Como ousa dizer que nosso governo pode vir a ser o
responsável pela maior catástrofe ambiental do planeta, acentuada pelas
mudanças climáticas em curso — nas quais não acreditamos — e com capacidade de
acelerar as próprias mudanças climáticas em curso — e já dissemos que nelas não
acreditamos? Em bom inglês: how dare you?
O presidente aparece na TV. Aparece na TV na Arábia Saudita.
Ao aparecer na TV na Arábia Saudita para falar a um grupo de investidores, ele
afirma ter potencializado as queimadas e o desmatamento na Amazônia porque ele
não se “identificou com políticas anteriores no tocante à Amazônia”. Arremata:
“A Amazônia é nossa! A Amazônia é do Brasil!”. Dias antes, membros do governo
dele haviam tentado dar a carteirada em você porque seus números, poxa, seus
números. A carteirada vem com um palavrório sobre os compromissos do governo
com a Amazônia. A Amazônia acima de tudo, a Amazônia acima de todos. Trata-se
da melhor política ambiental do planeta. Ela é fantástica, ela é memorável, ela
é estupenda. How dare you?
O problema. O problema é que logo em seguida você e toda a
torcida do Flamengo — sim, do Flamengo, viva o Flamengo — viram o presidente na
TV. Na Arábia Saudita. Coitada da carteirada. Ela já não tem mais o fôlego de
outrora. “Sabe com quem está falando?” Sei muito bem. Portanto, sente-se aí
porque ainda não acabei de dizer tudo que tenho a escrever sobre a Amazônia.
Monica de Bolle é diretora de estudos latino-americanos e
mercados emergentes da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do
Peterson Institute for International Economics

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