O ano de 2020 mal começou e, como sempre, a internet é
tomada por previsões feitas por astrólogos, videntes e cartomantes. Como nenhuma
das suposições tem qualquer embasamento científico, a Folha contratou sua
própria equipe de gurus e astrônomos para fazer sua leitura do ano.
Com a
alta do dólar, a previsão é que as praias brasileiras permaneçam lotadas.
O maior dano ao litoral do Nordeste não será o óleo, mas a invasão de
paulistas portando caixas de som JBL e taças de Aperol spritz. Assim como os
Teletubbies, eles só andam em grupo e não se misturam, embora postem selfies
com a legenda “Te amo Baêa!”.
As chuvas provocarão enchentes e deslizamentos, como sempre.
No Rio de Janeiro, mais ciclovias irão desabar, o que não abalará o carioca já
acostumado com tal incidente. O Cristo Redentor rolará Corcovado abaixo, mas a
imagem será rapidamente substituída, com
patrocínio das lojas Havan,
por uma réplica da Estátua da Liberdade.
Ao contrário do que muitos pensam, o cinema nacional ganhará
fôlego com o sucesso estrondoso do filme “Minha
Mãe É uma Peça”. Aproveitando o embalo, Paulo Gustavo anunciará mais dez
sequências da franquia, como “Minha Mãe É uma Peça: A Origem”, “Minha Mãe
É uma Peça Veloz e Furiosa”, “Minha Mãe É uma Jedi” e “Se Beber Não Case com a
Minha Mãe É uma Peça”.
Na política, Flávio Bolsonaro protagonizará mais um
escândalo envolvendo caixa dois. No mesmo dia, Jair Bolsonaro anunciará o plano
PETisco, para liberar a carne de cachorro e gato para consumo humano. A
medida causará polêmica, mas, logo em seguida, o presidente voltará
atrás.
Depois dos Terraplanistas e os Antivacinas, nascerão novos
movimentos de pós-verdade, como “as pirâmides foram construídas por
alienígenas”, “clitóris é invenção das feministas” e “cirurgia de apendicite é
para implantar chip esquerdista”. Surgirá uma tendência pela não-alfabetização,
para evitar que crianças sejam corrompidas pela militância de Paulo Freire.
A única verdade será a dita por gurus e astrônomos. Então
tudo indica que as previsões desta coluna serão tomadas como verdade. Isso se
as pessoas ainda souberem ler.
Flávia Boggio
Roteirista e autora do núcleo de humor da Globo

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