“Sempre há medíocres. São perenes. O que varia é seu
prestígio e sua influência”
José Ingenieros
José Ingenieros
A mediocridade é ardilosa. Não ataca repentinamente. Avança
sem pressa, como insidioso câncer. Apodera-se dos partidos, espraia-se pela
economia, invade a mídia, explora as redes sociais. Ao nos darmos conta, os
espaços públicos e privados já foram ocupados. Sobreviverão ilhas de
inteligência e de caráter, habitadas por mulheres e homens capazes, cuja
inferioridade numérica lhes dificulta a reação. Derradeiras esperanças são
depositadas no aparecimento de alguém disposto a arregimentar o povo para
campanha comprometida com a recuperação ética, cultural e econômica da Nação.
José Ingenieros (1877-1925) escreveu: “A psicologia dos
homens medíocres caracteriza-se por um traço comum: a incapacidade de conceber
uma perfeição, de formar um ideal. São rotineiros, honestos e mansos; pensam
com a cabeça dos demais, compartilham a alheia hipocrisia moral e ajustam seu
caráter às domesticidades convencionais (…). Não vivem para si mesmos, senão
para o fantasma que projetam na opinião dos semelhantes. Carecem de linha; sua
personalidade se borra como um traço de carvão sob o esfuminho, até
desaparecer”. Registra Ingenieros que, ao se associarem, tornam-se perigosos,
pois “a força do número supre a debilidade individual: juntam-se aos milhares
para oprimir quantos desdenham encadear sua mente com os grilhões da rotina” (O
Homem Medíocre, Ed. Ícone, SP, 2006).
Como definir o medíocre? Eça de Queiroz traçou-lhe o perfil
na figura do talentoso Pacheco, José Joaquim Alves Pacheco. Em resposta à
imaginária carta enviada pelo sr. E. Mollinet, interessado em saber quem é esse
compatriota “cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais
de Portugal”, escreveu Eça de Queiroz: “Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho
presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu
país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era
entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento.
Todavia, meu caro Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente
aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa,
visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas
profundezas de Pacheco” (A Correspondência de Fradique Mendes).
O macunaíma medíocre não é reservado ou discreto. Além de
inútil, é ambicioso e pedante. Alardeia a solução de problemas objetivos com
frases feitas e ideias extravagantes. Analisa o povo como massa anônima e
submissa. Conserva-se alheio ao mundo real, que lhe é indiferente e
desconhecido. É por sua causa que continuamos subdesenvolvidos, analfabetos,
pobres, sem saúde, sem educação, apesar de escorchante carga tributária. “O
Brasil só não é subdesenvolvido na pretensão”, escreveu o jornalista Carlito
Maia (1924-2002).
Analisemos o currículo dos membros da Assembleia Nacional
Constituinte, escolhidos nas urnas após 20 anos de autoritarismo. Quando se
esperava que o eleitorado atribuísse o ônus de representá-lo à elite ética,
jurídica e intelectual, o que se observou foi o oposto. A preferência recaiu
sobre maioria tacanha e despreparada. Depois de três décadas – tempo suficiente
para a atrasada China se transformar em potência mundial – os resultados são
constrangedores. O que esperar das eleições municipais de outubro? Políticos
envelhecidos, ultrapassados, desacreditados espanarão a poeira do esquecimento
para ressurgirem crentes na falta de memória, de interesse ou de vergonha do
eleitorado. Aspirantes à vereança e às prefeituras disputarão o primeiro
mandato investindo na fama conquistada como astros do palco e da televisão.
O progresso econômico deve-se a audazes pioneiros que
acreditaram no agronegócio. Na indústria, breves lapsos de crescimento são
acompanhados de anos de estagnação. O império da mediocridade pode ser avaliado
no aumento da pobreza, nas filas do INSS, no desemprego de 12 milhões, na
crescente violência, na desilusão dos jovens que buscam fazer a vida no
exterior, na falência (para os pobres) dos sistemas de saúde e educação, no
declínio da classe média. Escreveu Ingenieros que sob o governo da mediocridade
“a política se degrada, converte-se em profissão”; “políticos sem vergonha
existiram em todos os tempos e sob todos os regimes, mas encontram melhor clima
nas burguesias sem ideais”.
O presidente Jair Bolsonaro derrotou o Partido dos
Trabalhadores com o programa de combate à corrupção. Consumiu o primeiro ano do
mandato na busca do equilíbrio fiscal e com a reforma da Previdência. Como se
conduzirá em 2020? Governará para todos os brasileiros ou se dedicará à tarefa
irrelevante de fundar legenda submissa, organizada à sua imagem e semelhança?
Dez meses nos separam de eleições destinadas à reconstrução
da base da pirâmide política. Triunfará o desejo nacional de renovação, ou
prevalecerá o domínio da mediocridade? É o desafio que pela enésima vez os
eleitores serão chamados a decifrar.
*Advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do Tribunal
Superior do Trabalho

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