“Devolve meu dólar a R$ 1,99.” Houve gente que foi às ruas
pedir a cabeça de Dilma Rousseff carregando cartazes que criticavam a
desvalorização do real, alguns por chacota, outros a sério. Nas manifestações
finais a favor do impeachment, o dólar andava pela casa dos R$ 3,50.
A cada vez que o real cai da escada, como agora, a chacota
muda de lado. As fotos dos manifestantes de amarelo se tornam objeto de
ridículo e de memes que escarnecem também do governo, antes de Michel Temer,
agora de Jair Bolsonaro.
O povo ainda faz troça de Eduardo Bolsonaro, republicando o
tuíte em que o filho 03 recomendava “Não compre dólar agora!” em 14 de abril de
2016 (o dólar custava R$ 3,51).
É a conversa comum sobre economia no mundo real das redes
sociais, feita de ódio ou deboche do preço do tomate, do bife, da gasolina ou
do dólar. Graças à demagogia agressiva de Bolsonaro, os combustíveis voltaram a
ser motivo de “tretas”, piadas e ódios.
A gasolina está cara? Flutua em torno da média de R$ 4,41
desde janeiro de 2018. Custava R$ 4,58 na última semana de janeiro, segundo
pesquisa semanal da Agência Nacional do Petróleo (esses valores são médias
nacionais). Subiu uns 5% em um ano, um pouco mais do que os salários.
O salto grande de preços mais recente ocorreu no final de 2017. Em três anos, a gasolina subiu 23%; o salário médio, 14%. A inflação média foi de uns 11%. Na percepção e no bolso do povo mediano, a gasolina está cara.
O salto grande de preços mais recente ocorreu no final de 2017. Em três anos, a gasolina subiu 23%; o salário médio, 14%. A inflação média foi de uns 11%. Na percepção e no bolso do povo mediano, a gasolina está cara.
O dólar está caro? Embora uma variação abrupta do preço da
moeda americana possa ser importante, é tristemente tolo dizer que o dólar
“bate recordes”, como a gente lê por aí (dizer que o recorde é “nominal” apenas
lambuza a tolice de ridículo).
Feitas as contas relevantes, em termos reais o dólar está
onde esteve entre mais ou menos 2007 e 2009 (para ser específico, trata-se aqui
de taxas de câmbio real). Entre 2010 e 2014, a moeda brasileira ficaria
loucamente forte, em parte por causa da política econômica dos países centrais
em crise braba, em parte devido às barbaridades da política econômica
brasileira.
Foi a época do Bolsa Miami (gastos no exterior) e de alguma
farra de importados. Foi também uma paulada extra na indústria brasileira, que
desde 2010 parou de crescer.
O dólar nominal de janeiro de 2020 ficou 11% mais caro que o
de um ano antes (30% em relação a janeiro de 2018). Suscita uma sensação de
empobrecimento, em parte correta, embora de um ano para cá os gastos dos
brasileiros em viagens no exterior tenham ficado praticamente na mesma.
O preço dos combustíveis, claro, sobe também com a alta do
dólar. No entanto, essa desvalorização recente do real não buliu com a inflação
geral, convém notar.
E daí? Por qualquer critério, estamos na média mais pobres
do que em 2010: neste país já caro (de tão ineficiente), a crise aumentou a
penúria, óbvio. Quanto a esses preços que causam celeuma, há mais realismo, é
duro dizer, é duro ouvir.
Não há subsídio disfarçado no preço dos combustíveis. O
dólar desvalorizado resulta de gasto público e inflação mais controlados, que
contribuem para reduzir a taxa de juros (além da estagnação econômica). Bulir
com esses preços, com tabelamentos e subsídios, não vai resolver nosso
problema, apenas criar outros, como se fez em particular entre 2011 e 2014. Não
resolve a falta de crescimento e de investimento, o emprego precário. É
demagogia ou burrice ou as duas coisas.

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