O vídeo em que o jornalista Alexandre Garcia sugere que uma
troca de população entre Brasil e Japão faria com que os japoneses
transformassem o Brasil em potência mundial, e os brasileiros estragariam o
Japão, só viralizou porque o presidente Bolsonaro avalizou, compartilhando-o em
suas redes sociais.
O melhor do Brasil é o brasileiro, ou é o brasileiro que
prejudica o desenvolvimento do Brasil? A questão é outra, a meu ver: a
diferença educacional dos países mais desenvolvidos. Os especialistas lembram
que as escolas do Brasil são historicamente deficientes.
Em 1850, 90% da população dos EUA estava alfabetizada, e no
Brasil, naquele ano, tínhamos 90% de analfabetos. O Chile, em 30 anos, aumentou
a produtividade graças à educação, Malásia e a China vão na mesma direção. A
Coréia do Sul deu ênfase à tecnologia, e hoje precisamos de mais de três
brasileiros para produzir o que um coreano produz, quando em 1980 estávamos no
mesmo patamar.
Na mesma época, eram precisos dez chineses para produzir o
que um brasileiro produzia, já em 2010 bastava um chinês, e hoje um brasileiro
já não produz o mesmo que um chinês. A correlação entre escolaridade e renda
foi constatada em trabalhos científicos na década de 1950, quem estuda mais,
ganha mais.
A diferença entre a produtividade de um empregado nos
Estados Unidos e no Brasil – uma hora trabalhada por um brasileiro produz 1/5
que o de um americano – é explicada em boa parte pelo atraso da educação.
Os especialistas são unânimes em afirmar que nunca houve no
Brasil uma educação de qualidade para todos. De acordo com a Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Japão é o país com o maior
nível de igualdade na educação, e apenas 9% da variação de desempenho entre os
alunos é ocasionada por diferenças socioeconômicas.
O Japão tem um dos menores índices de evasão escolar: 96,7%
dos jovens terminam o ensino médio, quando a média nos países analisados pela
OCDE é de 76%, e no Brasil, é de 46%. A importância dada aos professores é uma
das explicações para os bons resultados. Assim como a distribuição de
professores para diversas áreas do país, criando equilíbrio no nível de ensino.
Professores mais experientes são enviados a locais menos desenvolvidos.
O ministro do Supremo Tribunal Federal Luis Roberto Barroso
considera que a educação é dos principais ítens de uma “verdadeira agenda
patriótica”. Ele escreveu no último número da revista acadêmica Direitos
Fundamentais e Justiça, da PUC/RS, o artigo “Educação Básica no Brasil: Do
Atraso Prolongado à Conquista do Futuro”, com base em estudos e contatos com
diversos especialistas em educação.
Como a universalização da Educação Básica no Brasil “se deu
com grande atraso, um século depois dos EUA”, mesmo com o progresso da inclusão
nas últimas décadas, os problemas ainda são dramáticos: a escolaridade média é
de 7,8 anos, inferior à média do Mercosul (8,6 anos) e dos BRICS (8,8 anos).
Um dos “pontos nevrálgicos” é a pouca atratividade da
carreira do magistério. “É preciso tratar o magistério como uma das profissões
mais importantes do país, elevar a capacitação dos professores e aumentar a
atratividade da carreira, com incentivos de naturezas diversas”, afirma
Barroso.
A ampliação do tempo de permanência na escola de cinco para
oito horas é providência reconhecida como decisiva para o avanço da Educação
Básica, diz ele. “Os Estados da Federação que adotaram programas de escolas em
tempo integral, como Espírito Santo e Pernambuco, destacaram-se nos resultados
do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”.
Segundo Luis Roberto Barroso, documentos do Banco Mundial e
pesquisadores reconhecidos internacionalmente atestam que o principal
investimento a ser feito em Educação Básica é “a partir das primeiras semanas
de vida da criança. Nessa fase, o cérebro é uma esponja que absorve todas as
informações que lhe são transmitidas”.
Pesquisas indicam que as boas creches contribuem de maneira
significativa para o desenvolvimento do potencial das crianças, assegurando que
recebam nutrição adequada, afeto, respeito, valores e conhecimentos básicos.
Como se vê, não é preciso mudar o povo para transformar o
Brasil em potência mundial. Depende de nós, como aliás disse Alexandre Garcia
no final de sua palestra. Enquanto o ministro da Educação considerar que é a
ideologia que atrapalha o país, não sairemos da situação em que estamos, o
fundo do poço, como ele mesmo definiu.
Saio de férias, a coluna volta a ser publicada na
quinta-feira dia 27.

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