Na última semana o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) concluiu a venda de R$ 22 bilhões de ações
ordinárias da Petrobras. A estratégia da equipe econômica é se desfazer da
participação em empresas consideradas “maduras”, atingindo assim o duplo
objetivo de redirecionar a atuação do banco estatal e contribuir para o ajuste
fiscal, por meio do repasse de dividendos à União. Antes da Petrobras, houve a
venda de 34% do capital do frigorífico Marfrig e também a zeragem de sua
posição na distribuidora de energia Light.
A venda de mais de 19 milhões de ações da Light pelo BNDES,
aliás, encerra uma trajetória mais do que centenária de envolvimento e
intervenção do governo na empresa. Constituída em 1899 em Toronto, no Canadá,
como São Paulo Tramway, Light and Power Company, a empresa começou a atuar no
Brasil em 1901 com a construção da usina hidrelétrica de Parnahyba, no rio
Tietê. Em 1905, os mesmos sócios canadenses criaram a Rio de Janeiro Tramway,
Light and Power Company.
A presença da Light, como passou a ser conhecida, mudou a
paisagem das duas maiores cidades brasileiras. Graças a seus investimentos, Rio
e São Paulo migraram das carroças para o bonde elétrico e dos lampiões para a
luz elétrica. A empresa obteve ainda a concessão dos serviços telefônicos nas
duas capitais, e expandiu sua atuação para outras regiões e setores no país.
O crescimento da maior multinacional estrangeira no Brasil à
época, porém, esteve longe de ser bem quisto. A empresa sofria constantes
acusações de que suas tarifas eram extorsivas e geravam lucros extraordinários
para serem remetidos à matriz. Ao lado do discurso nacionalista de políticos e
intelectuais, veio o populismo tarifário que subsidiava o consumo em detrimento
dos investimentos na expansão dos serviços. O sistema de bondes acabou ficando
sucateado e, depois de um longo período de intervenção federal, seu braço
telefônico, a CTB, foi estatizado em 1966.
Em meados da década de 1970 a situação da Light era complicada:
seu prazo de concessão estava prestes a expirar, o crescimento gerado pelo
milagre econômico exigia investimentos cada vez maiores para dar conta da
demanda crescente por energia elétrica e o controle das tarifas deteriorava a
receita da empresa. Nessas condições, os canadenses começaram a sinalizar que
queriam deixar o país.
A grande questão era: quem compraria a empresa? Àquela época
o país não dispunha de grupos econômicos com porte para arcarem sozinhos com a
aquisição. Por outro lado, o mundo vivia a ressaca do primeiro choque do
petróleo e o fluxo de investimentos para os países emergentes tinha secado. Só
restava a opção da estatização, mas pairavam dúvidas se o governo, enfrentando
uma grave crise fiscal e de balanço de pagamentos, teria divisas para bancar a
operação.
Foi nesse cenário que surgiu uma proposta bastante original.
Foi nesse cenário que surgiu uma proposta bastante original.
Concebida por Raphael de Almeida Magalhães, político e
ex-diretor da Light, e pelo jurista José Luiz Bulhões Pedreira, a ideia era
criar um arranjo societário e financeiro para, ao mesmo tempo, evitar a
estatização da Light e, como bônus, catapultar o desenvolvimento do mercado de
capitais no país.
Bulhões Pedreira, que ao lado do professor Alfredo Lamy
Filho havia elaborado o projeto da Lei das Sociedades Anônimas, desenhou a
arquitetura do negócio. Em linhas gerais, a ideia era constituir a Empresa
Brasileira de Participações S.A (Embrapar), que teria o seu capital
integralizado em partes iguais por um grupo de 20 das maiores empresas privadas
nacionais. A Embrapar adquiriria o controle acionário da Light e pagaria o
grupo canadense com os dividendos gerados num prazo de dez anos.
Para levantar os investimentos necessários para a
conservação e melhoria da sua rede, a Embrapar lançaria ações e títulos nas
bolsas do Rio e de São Paulo, e aí residiria a grande externalidade positiva da
operação: o lançamento de papéis de uma empresa cujos sócios controladores eram
os maiores empresários privados nacionais, lastreados num serviço que gerava
receita estável, teria o potencial de popularizar o mercado de capitais
brasileiro, pois se mostraria uma aplicação financeira muito mais rentável do
que as velhas cadernetas de poupança.
A proposta foi bem recebida pelos donos canadenses e tinha o
apoio dos ministros da Fazenda, Mario Henrique Simonsen, e das Minas e Energia,
Shigeaki Ueki. Mas acontece que a velha política atravessou o caminho. O
poderoso líder baiano Antonio Carlos Magalhães, então presidente da Eletrobras,
bombardeou a proposta privada de todas as formas possíveis, de fake news
plantadas na imprensa a relatórios negativos encaminhados ao presidente Ernesto
Geisel. E o que seria uma solução genial, de mercado, para o problema, acabou
constituindo mais um c apítulo do velho estatismo nacionalista brasileiro.
Em 29 de dezembro de 1978, os jornais estampavam nas suas
capas: o governo federal decidira comprar a Light. Por US$ 1,14 bilhão (US$ 4,5
bilhões hoje), a Eletrobrás adquiria 83% do capital da empresa, tendo como
justificativa a importância estratégica do setor de energia, “intrinsecamente
ligada à segurança nacional”, conforme nota divulgada à imprensa. Pouco depois
a Light foi repassada ao governo do estado do Rio de Janeiro, e após um longo
período de sucateamento, foi privatizada em 21 de maio de 1996. A viabilização
da transferência da empresa para o setor privado, porém, só foi concretizada por
meio da participação do BNDES. A venda da participação do banco no mês passado,
portanto, encerra definitivamente (será?) o ciclo de intervenção estatal na
empresa.
A empolgação com a agenda econômica do governo e a queda nas
taxas de juros vêm atraindo um contingente cada vez maior de pessoas para a
bolsa de valores. Nos idos de 1976, a proposta de José Luiz Bulhões Pedreira e
Raphael de Almeida Magalhães de criar a Embrapar tinha o objetivo de levar o
pequeno investidor para o mercado de ações. São “apenas” 44 anos de atraso, em
mais um capítulo da extensa lista de oportunidades perdidas em nossa história.
*Bruno Carazza é mestre em economia, doutor em direito e
autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político
brasileiro”.

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