O Brasil vive momento político inédito que reflete diretamente sobre nossas
famílias indígenas nas aldeias. Não sabemos qual a linha de ação do governo
brasileiro quando o novo chefe afirma que não vai demarcar nossas terras em seu
governo. Nossos líderes começaram a acender o fogo sagrado para iluminar novos
caminhos.
Se no passado nunca tratamos o homem branco faminto e
carente com menosprezo ou pilhéria, não devemos tampouco perder de vista o ódio
do homem branco que não nos conhece e ignora que somos mais de trezentas
sociedades com 220 línguas vivas.
Com a chegada dos avanços tecnológicos em nossas comunidades
como a luz, o celular e o computador, agora podemos acompanhar com maior
clareza as incertezas governamentais e as da modernidade. Não estamos isolados
desse mundo que nos cerca nem dissociados dessas questões. Sabemos do potencial
energético, ambiental e mineral dos quase 15% dos territórios que habitamos e
cuja demarcação está garantida na Carta Magna.
Não somos minorias étnicas ou restos de povos. Não estamos
carentes de um modelo de desenvolvimento que destrói o meio ambiente e
empobrece cada vez mais a sociedade nacional trazendo como consequências a
falta de perspectivas para nossa juventude, a insegurança do bem viver e o
conforto para os anciãos, e a falta de incentivo à pesquisa científica de
nossos ecossistemas.
Como primeiras nações, nós sempre buscamos o entendimento e
a construção de acordos para o bem comum. E, no entanto, nunca fomos chamados
para uma mesa de diálogo de alto nível junto ao Poder Legislativo, ao
Judiciário e muito menos ao Executivo.
Não se pode confundir nossa indignação com indolências ao
defender nossa soberania como seres humanos e cidadãos de primeira grandeza.
Não aceitamos qualquer forma de preconceito, menosprezo ou manifestações
escarnecedoras contra nossos princípios de vida, nossas autoridades
tradicionais e nosso Brasil.
Temos valores sagrados que a visão da sociedade moderna não
consegue enxergar. Sabemos conversar com as estrelas, com a lua, com a chuva e
com o vento. Não temos hospícios ou asilos. Nossa relação com o Grande Espírito
é sagrada e forte. Não dividimos Deus em seitas, igrejas ou líderes humanos que
pecam ao transformar essa relação em mercados econômicos ou currais eleitorais
para acordos políticos.
Lá, nas terras indígenas, estão instaladas nossas
universidades. É lá que aprendemos a interpretar os sinais do tempo como as
mudanças climáticas, a caminhar pelas matas ou navegar pelos rios sem precisar
de bússola magnética. É esse saber que formula nossa economia de mercado. Ali
aprendemos a reconhecer e agradecer todos os dias as dádivas do Grande
Espírito.
No início do século 20, um oficial do Exército Brasileiro
rompeu um centro-oeste inóspito com linhas telegráficas. Mesmo descendente dos
povos Bororo e Terena, ficou surpreso ao encontrar “aqueles que felizes viviam
no seio da selva”, mas era preciso avançar com sua missão. Um filme premiado de
Hollywood, na década de 1990, contou-nos sobre outro militar, tenente do
Exército dos EUA, John Dunbar, que tinha a missão de avançar as bases militares
em terras dos sioux. Dois exemplos dos primeiros contatos entre o mundo moderno
e os povos indígenas sem contato prévio, sem qualquer culpa de sua condição.
Quanto ao marechal Rondon, ele tratou de demonstrar em seus
relatórios um cotidiano que os centros urbanos não imaginavam que existisse.
Nem sempre o poder público, ao autorizar o avanço colonizador, leva em conta
esse quadro humano e social.
A Fundação Nacional do Índio não pode ser tratada como
desculpa por sua incompetência e ignorância no trato com os indígenas, mas sim
como compromisso de proteção e de promoção junto à sociedade nacional e também
como instrumento para que novas gerações de indígenas tenham acesso a novos
conhecimentos, mediante o ingresso nas universidades e o desafio de ser um
“índio melhor”.
A inteligência e as estratégias indígenas demonstraram seu
valor militar no passado durante a Guerra do Paraguai e na Segunda Guerra
Mundial, e atualmente como guerreiros fardados na proteção das áreas de
fronteiras amazônicas. Deles, não se conhece qualquer chacina contra o inimigo,
mas sempre o respeito aos humanos.
Os dois militares, Rondon e Dunbar, seja na realidade, seja
na ficção, certamente enfrentaram o maior dilema de suas vidas: matar ou
morrer. Rondon, ao deixar seu legado de militar e humanista, nunca imaginaria
que o chefe maior do homem branco, também oriundo do Exército brasileiro,
pudesse ser subjugado pelos interesses latifundiários, entregando a Funai à
própria sorte. Não é a primeira vez que somos atacados por ideologias que não
nos pertencem. No passado, nos chamaram de índios, pensando estarem na Índia, e
agora nos oferecem a condição de humanos.
Agradecemos essa oferta e em retribuição fazemos um
chamamento para o verdadeiro sentido de sermos humanos como cidadãos da selva
ao protegermos as florestas e suas plantas medicinais, as fontes de água dos
lagos e rios para as celebrações, e contemplar ainda em vida os céus azuis,
cinzas, vermelhos, amarelos a brilhar como morada dos nossos ancestrais. São
valores humanos que não se pode medir, apenas usufruir. O homem branco deveria
parar com agressões e aprender a ouvir os conselhos dos povos indígenas, afinal
são mais de 500 anos de resistência.
*Índio pantaneiro, escritor, fundador do Ministério da
Cultura e membro da Comissão

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