Todas as noites, em horário nobre, o terror
toma conta da TV
No telejornal da noite, o comentarista acha razoável deixar
os cidadãos
brasileiros em Wuhan, cerca de 40 pessoas, largados à própria sorte
—segundo se ouviu pouco antes no cercadinho. Veja bem, o custo que uma remoção
teria e o risco que significaria, etc, etc, etc, ele justifica, o pescocinho
rechonchudo apertado na gravata listrada.
Outro comentarista lembra que Jesus, sempre citado por nove
entre dez integrantes do governo (o décimo já deve estar com o batismo
marcado), nunca virou as costas. E que abandonar os cidadãos brasileiros por
economia é, no mínimo, uma desumanidade cometida pela turma do Deus acima de
tudo. O pescocinho rotundo do primeiro fica mais desconfortável que nunca na
gravata estilo sou cuzão.
Corta para aviões sendo enviados pelos Estados Unidos, pelo
Japão, pela França, pela Alemanha e por outros países —todos menos cristãos
que o Brasil de hoje— para resgatar seus cidadãos na China.
Em seguida entra a notícia do funcionário
público que saiu de Davos com duas assessoras em um avião da FAB para se juntar
à comitiva presidencial na Índia. Chegou no fim, mas apareceu nas fotos.
Depois de exonerado, foi readmitido e exonerado outra vez, tudo em menos de um
dia. Parece que o maior feito do sujeito até o episódio do cai-não-cai era ser
amigo de infância daqueles de sempre. É, meu consagrado, tem coisas que
nem Flavinho
e Dudu conseguem
fazer por você.
Nossos comerciais, e é hora de falar do Enem. O maior
concurso do tipo no mundo, um modelo até. Isso antes do Vai, Traub —e esse
trocadilho infame com o nome dele é mais uma coisa a não se perdoar, junto
com os absurdos cometidos contra a educação e a gramática.
Mas é difícil resistir. O apresentador não cede a essa
tentação e diz Weintraub direitinho,
pronúncia perfeita, enquanto informa que um menino de Fortaleza, inscrito para
engenharia da computação, apareceu classificado em primeiro lugar no Sisu para
engenharia da aquicultura, e lá no interiorzão do Ceará. Não adianta perguntar
o porquê para o Vai, Traub, ele não vai saber o que é aquicultura.
Ligar a TV no noticiário da noite é assim. Depois, fritando
na cama, medo de sonhar com isso daí, o cara se amaldiçoa. Da próxima
vez, melhor assistir a um terror sangrento.
Claudia Tajes
Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de
"Macha".

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