A Polícia Federal concluiu que o senador Flávio Bolsonaro
não cometeu os crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica de que está
sendo acusado pelo Ministério Público do Rio, por estranhas transações com
lucros astronômicos, marotas declarações de bens, movimentações atípicas de
dinheiro vivo e invejável evolução patrimonial —tudo isso para um então
deputado estadual e dono de uma loja de chocolates próspera no ano inteiro,
menos na Páscoa. Ao ser indagado a respeito por um repórter, o presidente
Bolsonaro rugiu: “Pergunta pra Polícia Federal!”.
Típico de Bolsonaro. Fala todos os dias com os jornalistas,
mas, se um deles toca em algo mais delicado ou lhe pede para explicar uma de
suas próprias declarações, vocifera cala-bocas como “Chance zero!”, “Esquece!”,
“Ponto final!”, “Assunto encerrado!” e “Próxima pergunta!”. Ou põe fim de vez à
conversa com o incisivo “Acabou, talquêi?” e o já clássico “Pergunta pra tua
mãe!” —o primeiro presidente a botar a mãe no meio das ejaculações
presidenciais. Mas, no caso das acusações a Flávio Bolsonaro, ele tem razão —só
a Polícia Federal consegue explicar por que o livrou.
Já seu outro filho, o vereador Carlos Bolsonaro, usa tática
mais sutil. Em suas postagens nas redes sociais, alinha os argumentos de que
precisa para provar um ponto. Mas, em vez de levá-los à conclusão lógica, termina
com “Tirem suas conclusões” —dando margem a que seus interlocutores cheguem
exatamente à conclusão a que ele quer que cheguem, mas pensando que o fazem por
conta própria.
É um coquetel retórico, combinando conceitos de persuasão de
massas, técnicas de publicidade e estratégias de livros de autoajuda, tudo bem
misturado e servido com uma cereja. Serve tanto para vender sabão em pó quanto
para induzir um indeciso a se aproximar de um líder, converter-se a ele e
pensar como ele.
Tirem suas conclusões.
*Ruy Castro, jornalista e escritor, autor das biografias de
Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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