Jair Bolsonaro é um alienado, mas a preocupação em tentar
preservar a atividade econômica não é sem sentido, sobretudo porque não há
clareza sobre quanto tempo a crise da Covid-19 pode durar. A normalização de
fato só virá se conseguirmos desenvolver uma vacina ou depois que gente o
bastante tiver sido infectada e se recuperado, produzindo a tal da imunidade de
rebanho.
Precisamos parar quase tudo por um tempo, para tentar
reduzir o impacto da primeira onda da epidemia sobre os sistemas de saúde, mas
um lockdown não pode durar para sempre. Basta um experimento mental para
constatá-lo: ignoramos a real letalidade do Sars-Cov-2, que pode ficar em
qualquer cifra entre 0,05% e 3%, mas não precisamos de estudos epidemiológicos
para saber que a inanição é letal em 100% dos casos.
E o tempo de paralisação importa. Bem antes de chegarmos ao
ponto da fome generalizada pelo colapso da produção agrícola –se ninguém
fabricar mais peças de trator, uma hora o campo para–, começaríamos a
colecionar mortos por outras causas, como o agravamento de cânceres devido ao
adiamento de cirurgias eletivas, doenças associadas à desnutrição nas famílias
mais vulneráveis etc.
Nem é preciso introduzir elementos financeiros na conta. Há,
por definição, um instante em que os óbitos atribuíveis à deterioração
econômica superam os da Covid-19.
Ainda que os parâmetros que permitiriam fazer esse cálculo
não sejam hoje conhecidos, o dilema entre proteger o sistema de saúde e
proteger a economia é real. Precisamos desde já bolar estratégias para tentar
retomar a atividade passada a primeira onda. Bons estudos epidemiológicos
ajudariam muito.
O que torna a posição defendida por Bolsonaro insustentável
são as incertezas em relação à epidemia.
Um lockdown exagerado sempre pode ser relaxado, mas um
desleixo inicial, magnificado pelo poder avassalador da curva exponencial, não
tem volta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário