Direito de livre
assembleia proibido, ir e vir restrito, liberdade de culto com limitações. O
coronavírus parece também ter obrigado a democracia a entrar em quarentena, com
o mundo afundado em um misto de medidas necessárias para vencer a pandemia, mas
também tentativas de líderes autoritários de se aproveitarem dela para ganhar
mais poder e populistas que, usando a recorrente tática de vender soluções
fáceis para problemas complexos, mais atrapalham do que ajudam seus países no
combate à doença.
Scholars
especializados no tema têm acompanhado com preocupação o impacto que o enfrentamento
ao vírus pode ter na democracia de diversos países, muitos já convivendo com
retrocessos nos últimos anos. Desde 2006, mais países veem suas democracias
erodindo do que outros as têm fortalecido. De acordo com a Freedom House,
organização sem fins lucrativos baseada nos Estados Unidos e que monitora os
avanços e recuos das democracias de todo o mundo, 64 países se tornaram menos
democráticos e somente 37 se fortaleceram em 2019. A perspectiva para este ano
é que esse número seja ainda maior, por causa da pandemia.
Mas, onde muitos só
veem janelas para o autoritarismo ganhar espaço, há quem aposte também na
oportunidade que a Covid-19 está dando para as populações perceberem quão
perigoso é entregar o comando do país a um populista.
Na Hungria, o primeiro-ministro
Viktor Orbán agora pode governar por decretos. Em Israel, o Parlamento e
tribunais foram fechados, e Benjamin Netanyahu conseguiu adiar seu julgamento
por corrupção por dois meses. Na Sérvia e na Turquia, veículos pró-regime deram
voz a falsos especialistas que defenderam que suas populações são geneticamente
protegidas do vírus. No México, López Obrador abriu mão da máscara e do álcool
em gel e se apegou a imagens religiosas, sugerindo que os governados fizessem o
mesmo, e demorou a admitir a gravidade do problema. No vizinho Estados Unidos,
enquanto a governista Fox News culpava o Partido Democrata por espalhar medo,
Donald Trump também passou por diversas fases, da banalização da doença à
tentativa de criar o rótulo de “vírus chinês”, desaguando agora numa guerra à
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por aqui, Jair
Bolsonaro embarcou forte na onda negacionista. Perdeu três semanas batendo na
tecla da “gripezinha”, pregando contra o isolamento, enquanto um de seus filhos
e sua tropa digital escolhiam a China como bode expiatório. Não deu certo. O
Datafolha apontou que 76% da população concorda com a quarentena como está
sendo feita hoje, e houve um esforço diplomático de diferentes instituições
para apaziguar as relações com a China. Diante do fracasso das duas tentativas
iniciais, Bolsonaro apostou em badalar a cloroquina e a hidroxicloroquina como
as soluções para a Covid-19, novamente à revelia da comunidade científica
mundial e de seu próprio ministro da Saúde. E, ao menos para sua popularidade,
deu certo.
Depois de dias
enfraquecido nas redes sociais, começou uma reação. Segundo medição da
Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, antes de
o presidente e seus apoiadores concentrarem esforços na promoção da cloroquina
e na associação da imagem de Bolsonaro a ela, a base bolsonarista representava
apenas 12,3% das interações em torno do coronavírus no Twitter. A oposição
tinha 59,6%. Ainda que possa ser uma vantagem momentânea, colou o discurso do
“remédio de Bolsonaro”, maneira pela qual a militância passou a chamar os dois
medicamentos. De acordo com medição da consultoria Bites, também na análise do
sentimento dos internautas nas redes sociais, até às 21 horas da quarta-feira
8, eram 249 mil menções associando a cloroquina a Bolsonaro, pouco menos da
metade de todos os tuítes de brasileiros sobre o coronavírus naquele dia. Os
bolsonaristas saíram-se bem na ação para criar a percepção de que o presidente
estava certo desde o começo, quando defendeu a cloroquina no combate à Covid-19
— o que, ressalte-se, ainda não é comprovado pela ciência.
Medidas severas
para combater a pandemia, ainda que infrinjam temporariamente liberdades e
direitos, não são por si só antidemocráticas.
Na Áustria, o
ministro da Saúde tentou editar um decreto de Páscoa que autorizaria a polícia
a entrar nas casas para checar se as famílias estavam se reunindo em almoços do
feriado religioso. Uma medida como essa, um recurso extremo, não faria sentido
sem o consentimento do Parlamento. Não à toa, o Ministério da Saúde austríaco
desistiu após protestos da oposição e da sociedade civil.
No Brasil, algo
desse tipo foi a tentativa de Bolsonaro de mudar a Lei de Acesso à Informação,
praticamente suspendendo-a durante a pandemia, o que não só dificultaria a
capacidade da sociedade de fiscalizar o poder público, como restringiria o
direito à informação, fundamental para que a população esteja preparada para se
prevenir e enfrentar a doença. O contrapeso dos outros Poderes se fez
necessário. O Supremo Tribunal Federal suspendeu o efeito imediato da Medida
Provisória que mudara a lei e o Congresso provavelmente alterará seu teor nas
próximas semanas.
Autor de O povo
contra a democracia, uma das bíblias para entender a ascensão do populismo
autocrata, o alemão Yascha Mounk, professor em Harvard, é o âncora semanal de
um dos mais interessantes podcasts para quem gosta de debates aprofundados
sobre política. Em The good fight, disponível gratuitamente no site de Mounk,
ele conversa com professores, jornalistas, diplomatas e outros profissionais
envolvidos no debate sobre os rumos da democracia mundo afora. No último
episódio, Mounk recebeu Daniel Ziblatt, também professor de Harvard, coautor de
outro livro essencial para entender o populismo de direita atual, Como as
democracias morrem. Os dois avaliam na conversa que a pandemia poderá
atrapalhar os autocratas populistas que já estão no poder, quando táticas de
usar bodes expiatórios falharem e os cidadãos perceberem a falta que fazem
instituições fortes e sérias funcionando.
“Essa situação (a
pandemia) favorecerá a oposição aos governos. Vai prejudicar os populistas que
já estão no cargo. Acho que na verdade reduz as chances de reeleição. Pode
enfraquecer alguém como Jair Bolsonaro, no Brasil”, analisa Mounk.
Blatt lembra que a
crise econômica poderá enfraquecer quem já está no poder. “Essa crise de saúde
torna-se uma crise econômica. Isso é bem provável. Isso vai enfraquecer
dramaticamente tanto Bolsonaro quanto Trump”, afirma, lembrando que os
populistas que estão na oposição, a exemplo da França, podem sair fortalecidos,
se forem enxergados como alternativa.
As próximas semanas
mostrarão quanto tempo vai durar o sucesso do discurso salvacionista da
cloroquina. E se saberá se o Brasil está no grupo de países em que a pandemia
fortaleceu o populismo ou naquele em que mais pessoas perceberam que não
existem remédios milagrosos para problemas complexos.

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