Em 31 de maio de
2019, quando o mundo era outro, publiquei a primeira coluna em que perguntava
se Bolsonaro era um sujeito inteligente, que se vale de estratégias mais ou
menos elaboradas para alcançar seus objetivos, ou apenas um oportunista que
teve duas ou três intuições corretas e muita sorte. À época, admitia que as
duas leituras eram possíveis.
Penso que hoje já é
possível responder à questão de forma mais assertiva e concluir, quase
definitivamente, que Bolsonaro é burro mesmo. Uma guerra ou pandemia (os
efeitos políticos são parecidos) é o sonho de consumo de líderes em
dificuldades. Elas oferecem o pretexto ideal para o governante evocar o
discurso da união nacional e surfar na subsequente onda de popularidade.
Não é uma
coincidência que regimes moribundos frequentemente provoquem um conflito armado
para tentar legitimar-se pela guerra, como fizeram os generais argentinos nas
Malvinas em 1982. Não deu certo porque perderam no teatro militar, mas
praticamente toda a oposição cerrou fileiras com os ditadores.
Levantamento de O
Núcleo divulgado pelo site
The Brazilian Report,
feito em oito países, mostrou que Bolsonaro e o presidente mexicano, que também
flertava com o negacionismo, foram os únicos que não experimentaram aumento de
aprovação por causa da Covid-19. Mesmo dirigentes de nações que lidam com
pilhas de cadáveres, como a Itália e os EUA, recuperaram popularidade.
Mais, a epidemia é
um tipo de crise que faz com que políticos que não tenham cargos públicos
praticamente desapareçam. Foi o caso de Joe Biden nos EUA. A figura que cresceu
ali foi a do governador de Nova York, Andrew Cuomo. Aqui no Brasil, Luciano
Huck se apaga, enquanto ganham visibilidade Doria, Witzel, Maia e Mandetta.
A menos que Bolsonaro tenha
acesso a conhecimentos privilegiados sobre a Covid-19, ele está cavando sua
própria sepultura política, atitude incompatível com inteligência.
Hélio
Schwartsman
Jornalista, foi
editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

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