quinta-feira, 9 de abril de 2020

O CAPITÃO CORONA SOFRE DO MESMO NARCISISMO DOS PIORES VILÕES

Flávia Boggio, Folha de S.Paulo
Morava nos pântanos alagados da Barra da Tijuca uma das maiores ameaças de Tropicalópolis.
Essa mente malfeitora começou provocando danos isolados, como planejar explodir quartéis e ser um deputado insignificante. Mas os tropicalenses, impulsionados por um conservadorismo liberal sem sentido, o alçaram ao posto de presidente.
O que não poderia ficar pior ficou. A chegada de um vírus letal vindo da China transformou o ordinário ex-capitão em um dos maiores vilões já vistos, não só em Tropicalópolis, mas em todo o planeta Terra. Pelos grandes jornais, recebeu a alcunha de Capitão Corona.
Sem o carisma de Lex Luthor, tão incompetente quanto o Esqueleto, de “He-Man”, e mais imaturo que o Capitão Feio da “Turma da Mônica”, Capitão Corona sofre do mesmo narcisismo dos piores vilões.
Assim como a Rainha Má de “Branca de Neve”, ele se olha no espelho diariamente, se perguntando: “Existe alguém que manda mais do que eu?”. A resposta é sempre sim.
Como um flautista de Hamelin, esse mentecapto consegue hipnotizar hordas de seguidores com as ideias mais estapafúrdias. Ele já convenceu multidões a fazer jejum pelo fim da epidemia e que o coronavírus é uma arma chinesa para implantar o comunismo no mundo.
Direto do Gabinete do Ódio, seus filhos, versões do Robin do mal, disparam fake news e ofensas a desafetos. Até seu aliado, o ministro da Saúde, responsável por combater a epidemia, foi linchado por seus robôs digitais.
Outro superpoder é o da transformação. Ao seu lado, João Doria se torna um grande estadista, e Donald Trump se parece com Winston Churchill. Até o Capitão Daciolo vira uma opção viável perto do Capitão Corona.
Essa mente do mal também sabe criar situações cômicas involuntárias, como quando usou teleprompter para um pronunciamento sobre a epidemia. Sua performance robótica fez a rainha
Elizabeth, nos seus quase 94 anos, parecer William Bonner ao fazer o mesmo.
Mas, como todo vilão, o Capitão Corona tem um ponto fraco: a burrice. Foi só ele ouvir as palavras “ciência”, “disciplina” e “planejamento”, que apareceu com cara de criança que teve seu pirulito sabor cloroquina roubado. Depois se retirou, repetindo mentalmente o mantra dos mais patéticos vilões: “Eu voltarei”.
Flávia Boggio
Roteirista e autora do núcleo de humor da Globo
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