quinta-feira, 9 de abril de 2020

O CRISTIANISMO BOLSONARISTA É O NOVO CULTO AO BEZERRO DE OURO

Eric Balbinus de Abreu, Medium

Em mais uma das muitas cenas insólitas que o bolsonarismo nos proporciona, uma chamou atenção pela bizarrice e heresia. Foi no dia de ontem, quando o presidente Jair desancava o ministro da Saúde Henrique Mandetta, considerado traidor do Reich miliciano por sua condução minimamente responsável e técnica no tratamento da pandemia do Covid-19. Jair saiu do palácio para receber a oração de pastores, fiéis evangélicos e alguns católicos (há até um padre no meio da bagunça) que foram a Brasília orar por ele no âmbito do dia de jejum nacional conclamado pelo próprio Bolsonaro. Quando Jair começou sua saraivada contra o insubordinado técnico, seus impropérios foram respondidos não com um, mas com incontáveis “Améns”. Talvez seja a hora mais escura para a Igreja brasileira, que parece amordaçada pelos encantos satânicos do extremismo político.

É claro que quando se fala de Igreja brasileira (mais especificamente igreja evangélica brasileira) é evidente que a imaginada constituição monolítica não tem lastro algum na realidade. O fenômeno evangélico no país é complexo, rico e plural tanto quanto a sociedade em que viceja. Quem olha para as classes médias urbanas do Sudeste e crava que a essência deste grupo é conservadora e de direita pode se surpreender quando apresentado a realidade das comunidades ribeirinhas e rurais do Norte, sobretudo no Acre, onde um dos últimos bastiões do petismo se sustenta com base no sindicalismo e nas comunidades evangélicas que já correspondem a quase metade da população. As generalizações são perigosas, mas este fenômeno não deixa de dialogar com os rumos da sociedade secular e suas movimentações políticas. Com o bolsonarismo não seria diferente. A inflexão que deve ser feita aqui é outra: a sociedade secular parece já ter se situado de que o bolsonarismo (ou talvez, “Bolsolavismo”) é um culto político e não um simples movimento populista. A Igreja brasileira é que não calculou ainda os riscos dessa associação.

Vou poupar o latim sobre considerações mais profundas acerca destes fenômenos principalmente por entender que o bolsonarismo e sua dimensão social devem ser objetos de pesquisas mais profundas no futuro próximo, por ora me concentro na questão mais visível e óbvia: o cristianismo bolsonarista é tudo, menos cristão. Se excluirmos algumas associações superficiais, citações soltas e lógicas frágeis que ele propõe, não resta muito do que possa ser associado ao Evangelho. A maioria dos cristãos ajudou a eleger o presidente sobretudo por conta da falta de compreensão da cidadania que percorre amplos setores da sociedade (fruto natural da negligência com a educação pelos sucessivos governos) e pelo antagonismo fomentado por setores mais radicalizados das esquerdas progressistas que pensam a sociedade como um sistema de diretrizes inorgânicas. Quem não dissocia a sociedade dos valores perenes e o modo de organização do pensamento da trajetória continua dos povos sabe que qualquer mudança proposta demanda tempo de convencimento, e que por mais excruciante que pareça em alguns casos certas militâncias só verão seus frutos dali a algumas gerações. O homem caído não é tão racional quanto se pensa, sua visão limitada precisa do acréscimo continuo para ser melhorada — e foi assim que o Ocidente levou alguns anos para compreender a imoralidade da escravidão, a necessidade dos direitos humanos e mais recentemente a soberania da dignidade e liberdade de escolha de minorias sexuais em detrimento das objeções morais que nutrimos em nosso íntimo. Aliás, quem é cristão deveria saber que a ordenança é para ele e não para o mundo, ainda assim se criam celeumas desnecessárias porque somos todos igualmente humanos.

Enfim, este foi o cenário de coisas que impulsionou o apoio a Bolsonaro no meio cristão. O problema é que alguns de nós passaram a confundir uma opinião contrária ao outro lado com a mistificação do líder. Jair não era mais um político qualquer com a qual convergiam em algumas idéias, mas se tornou um representante do próprio Deus ungido e levantado para conduzir seu povo na luta contra os emissários de Satanás. Esta visão consegue ser errada ao mesmo tempo dos pontos de vista político, sociológico e teológico, conquista a proeza de ser um erro político e uma heresia com o mesmo vigor. Se o cristão entende todos os que dele divergem como inimigos a serem esmagados pelo coturno do presidente, se não consegue separar o papel do governo secular da cristandade e sobretudo se é incapaz de compreender aspectos tão básicos da fé como a imperfeição do homem (mais contundente no conceito da depravação total), então este cristão não pode ser digno deste nome. Se não compreende que o incrédulo deve ser tratado com misericórdia (assim como Deus nos dispensou misericórdia por meio da Graça), então é provável sentenciar que este cristianismo paraguaio serve mais aos fariseus que ao próprio Cristo.

Os tempos são difíceis, já que setores expressivos da igreja aderiram ao bolsonarismo como tábua da Salvação para a garantia do Evangelho. Não são poucos os que imaginam que sem Jair não será possível exercer a fé, ignorando o princípio fundamental de que Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ao colocar a fé em Jair acima da fé no sacrifício de Jesus estes incautos se somam ao culto bolsonarista. Na prática esta seita política não é nem um pouco diferente da seita do reverendo Moon ou do culto do pastor comunista Jim Jones. Transformaram o aspirante a carniceiro em Bezerro de Ouro, confundiram sua pregação de violência com o Evangelho e esvaziaram o significado da Cruz com a submissão ao mais cruel dos presidentes do recente democrático. Os líderes cristãos que aceitaram fazer parte da campanha de Jejum conclamada pelo presidente o legitimaram como papa da seita herege, e serão lembrados como os que acorrentaram a Igreja aos propósitos de um político iníquo. A idolatria em si já é pecado gravíssimo, se devotada a aspirantes a carniceiros é sinal claro de loucura. E não adianta argumentar que é necessário ser duro com os inimigos do Evangelho porque as Escrituras são bem claras a este respeito: “Não tenhas inveja do homem violento, nem escolhas nenhum de seus caminhos”, como está registrado em Provérbios 3:31. Ao que parece esta pandemia será o vendaval que revolverá tudo o que for falso, e isso se aplica tanto a política e seus ratos quanto aos mercadores da fé e falsos profetas. O que podemos fazer como cristãos é perseverar no verdadeiro Evangelho e denunciar os mentirosos, para que amanhã não se diga que não houve oposição.

Eric Balbinus de Abreu

Bacharel em R.I e pós-graduado em Ciência Política. Cristão batista que é Conservador na política e corintiano nos costumes.

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