Em mais uma das muitas cenas insólitas que o bolsonarismo
nos proporciona, uma chamou atenção pela bizarrice e heresia. Foi no dia de
ontem, quando o presidente Jair desancava o ministro da Saúde Henrique
Mandetta, considerado traidor do Reich miliciano por sua condução minimamente
responsável e técnica no tratamento da pandemia do Covid-19. Jair saiu do
palácio para receber a oração de pastores, fiéis evangélicos e alguns católicos
(há até um padre no meio da bagunça) que foram a Brasília orar por ele no âmbito
do dia de jejum nacional conclamado pelo próprio Bolsonaro. Quando Jair começou
sua saraivada contra o insubordinado técnico, seus impropérios foram
respondidos não com um, mas com incontáveis “Améns”. Talvez seja a hora mais
escura para a Igreja brasileira, que parece amordaçada pelos encantos satânicos
do extremismo político.
É claro que quando se fala de Igreja brasileira (mais
especificamente igreja evangélica brasileira) é evidente que a imaginada
constituição monolítica não tem lastro algum na realidade. O fenômeno
evangélico no país é complexo, rico e plural tanto quanto a sociedade em que
viceja. Quem olha para as classes médias urbanas do Sudeste e crava que a
essência deste grupo é conservadora e de direita pode se surpreender quando
apresentado a realidade das comunidades ribeirinhas e rurais do Norte,
sobretudo no Acre, onde um dos últimos bastiões do petismo se sustenta com base
no sindicalismo e nas comunidades evangélicas que já correspondem a quase
metade da população. As generalizações são perigosas, mas este fenômeno não
deixa de dialogar com os rumos da sociedade secular e suas movimentações
políticas. Com o bolsonarismo não seria diferente. A inflexão que deve ser
feita aqui é outra: a sociedade secular parece já ter se situado de que o
bolsonarismo (ou talvez, “Bolsolavismo”) é um culto político e não um simples
movimento populista. A Igreja brasileira é que não calculou ainda os riscos
dessa associação.
Vou poupar o latim sobre considerações mais profundas acerca
destes fenômenos principalmente por entender que o bolsonarismo e sua dimensão
social devem ser objetos de pesquisas mais profundas no futuro próximo, por ora
me concentro na questão mais visível e óbvia: o cristianismo bolsonarista é
tudo, menos cristão. Se excluirmos algumas associações superficiais, citações
soltas e lógicas frágeis que ele propõe, não resta muito do que possa ser
associado ao Evangelho. A maioria dos cristãos ajudou a eleger o presidente
sobretudo por conta da falta de compreensão da cidadania que percorre amplos
setores da sociedade (fruto natural da negligência com a educação pelos
sucessivos governos) e pelo antagonismo fomentado por setores mais
radicalizados das esquerdas progressistas que pensam a sociedade como um
sistema de diretrizes inorgânicas. Quem não dissocia a sociedade dos valores
perenes e o modo de organização do pensamento da trajetória continua dos povos
sabe que qualquer mudança proposta demanda tempo de convencimento, e que por
mais excruciante que pareça em alguns casos certas militâncias só verão seus
frutos dali a algumas gerações. O homem caído não é tão racional quanto se
pensa, sua visão limitada precisa do acréscimo continuo para ser melhorada — e
foi assim que o Ocidente levou alguns anos para compreender a imoralidade da
escravidão, a necessidade dos direitos humanos e mais recentemente a soberania
da dignidade e liberdade de escolha de minorias sexuais em detrimento das
objeções morais que nutrimos em nosso íntimo. Aliás, quem é cristão deveria
saber que a ordenança é para ele e não para o mundo, ainda assim se criam
celeumas desnecessárias porque somos todos igualmente humanos.
Enfim, este foi o cenário de coisas que impulsionou o apoio
a Bolsonaro no meio cristão. O problema é que alguns de nós passaram a
confundir uma opinião contrária ao outro lado com a mistificação do líder. Jair
não era mais um político qualquer com a qual convergiam em algumas idéias, mas
se tornou um representante do próprio Deus ungido e levantado para conduzir seu
povo na luta contra os emissários de Satanás. Esta visão consegue ser errada ao
mesmo tempo dos pontos de vista político, sociológico e teológico, conquista a
proeza de ser um erro político e uma heresia com o mesmo vigor. Se o cristão
entende todos os que dele divergem como inimigos a serem esmagados pelo coturno
do presidente, se não consegue separar o papel do governo secular da
cristandade e sobretudo se é incapaz de compreender aspectos tão básicos da fé
como a imperfeição do homem (mais contundente no conceito da depravação total),
então este cristão não pode ser digno deste nome. Se não compreende que o
incrédulo deve ser tratado com misericórdia (assim como Deus nos dispensou
misericórdia por meio da Graça), então é provável sentenciar que este
cristianismo paraguaio serve mais aos fariseus que ao próprio Cristo.
Os tempos são difíceis, já que setores expressivos da igreja
aderiram ao bolsonarismo como tábua da Salvação para a garantia do Evangelho.
Não são poucos os que imaginam que sem Jair não será possível exercer a fé,
ignorando o princípio fundamental de que Cristo é o Caminho, a Verdade e a
Vida. Ao colocar a fé em Jair acima da fé no sacrifício de Jesus estes incautos
se somam ao culto bolsonarista. Na prática esta seita política não é nem um
pouco diferente da seita do reverendo Moon ou do culto do pastor comunista Jim
Jones. Transformaram o aspirante a carniceiro em Bezerro de Ouro, confundiram
sua pregação de violência com o Evangelho e esvaziaram o significado da Cruz
com a submissão ao mais cruel dos presidentes do recente democrático. Os
líderes cristãos que aceitaram fazer parte da campanha de Jejum conclamada pelo
presidente o legitimaram como papa da seita herege, e serão lembrados como os
que acorrentaram a Igreja aos propósitos de um político iníquo. A idolatria em
si já é pecado gravíssimo, se devotada a aspirantes a carniceiros é sinal claro
de loucura. E não adianta argumentar que é necessário ser duro com os inimigos
do Evangelho porque as Escrituras são bem claras a este respeito: “Não tenhas
inveja do homem violento, nem escolhas nenhum de seus caminhos”, como está
registrado em Provérbios 3:31. Ao que parece esta pandemia será o vendaval que
revolverá tudo o que for falso, e isso se aplica tanto a política e seus ratos
quanto aos mercadores da fé e falsos profetas. O que podemos fazer como
cristãos é perseverar no verdadeiro Evangelho e denunciar os mentirosos, para
que amanhã não se diga que não houve oposição.
Bacharel em R.I e pós-graduado em Ciência Política. Cristão batista que é Conservador na política e corintiano nos costumes.

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