Ao fim desta pandemia, pouca coisa vai sobrar da agenda com
a qual o ministro Paulo Guedes chegou ao governo. As reformas foram
engavetadas, o plano Mansueto foi deixado de lado por outro que socorre os
estados na emergência, a empresa que está para ser privatizada ajudou a fazer o
caminho para o pagamento do auxílio emergencial, a proposta de zerar o déficit
público se transformará no maior déficit da nossa história.
Ontem, o governo, de um lado, a Câmara e os governadores, de
outro, brigavam em torno de quanto transferir aos estados e municípios neste
momento. O chamado Plano Mansueto era uma excelente ideia para um outro mundo,
e certamente voltará a ser. Ele induz os estados e municípios a se ajustarem e
buscarem notas de crédito melhores e os incentiva com recursos e avais conforme
a nota alcançada. Mas como falar em ajuste num momento em que despencam as
arrecadações de ICMS e ISS? Agora, a Câmara decidiu aprovar projeto que
facilita as transferências para a sustentação da receita dos estados e
municípios e suspende a cobrança das dívidas com o Tesouro.
O deputado Rodrigo Maia explicou ontem que, se deixasse o
Plano Mansueto, ele seria desvirtuado, porque estavam sendo incluídas emendas
com propostas de gastos de longo prazo:
– O Plano Mansueto é correto, vai ter que ser enfrentado,
mas neste momento todos os estados vivem a mesma angústia, que é a necessidade
de receitas para enfrentar a crise.
A pandemia mudou completamente tudo no mundo, mas o fato é
que o projeto do governo já não ia bem. O que houve de privatização foi a venda
de participações ou blocos de ações feita por algumas empresas e bancos
públicos. A abertura da economia também teve pouco avanço. O projeto liberal
patinou no primeiro ano de governo. Agora, devido às circunstâncias, ele tem
que ser deixado de lado, e economistas preparados para fazer um programa têm
que fazer o inverso.
A versão do governo, dita em várias entrevistas, é que o
país estava decolando quando foi abatido pela crise. Não é verdade. O primeiro
trimestre já não vinha dando bons sinais de recuperação da economia. O comércio
caiu 1,4% em janeiro e subiu menos em fevereiro, 1,2%. O setor de serviços
vinha de duas quedas no final do ano passado, subiu apenas 0,4% em janeiro e
voltou a cair 1% em fevereiro. Na indústria, as duas altas dos meses de janeiro
e fevereiro não recuperaram as perdas de novembro e dezembro. Olhando apenas
para fevereiro, último mês antes da pandemia, o Ibre/FGV projetou alta de
apenas 0,1% no seu Índice de Atividade Econômica (IAE).
Na entrevista concedida ontem pela área econômica foi dito
que eles estavam se preparando desde dezembro para esta crise. Isso está bem
distante dos fatos. A verdade é que até o começo de março o governo continuava
defendendo apenas a aprovação das reformas. Perguntei a um integrante graduado
da equipe econômica, no dia 5 de março, que resposta seria dada à crise do
coronavírus e ouvi que havia apenas três infectados e que o Brasil era uma
economia fechada que seria menos impactada. Naquele mesmo dia, o número subiria
para oito. E ontem já havia 800 mortos.
Ontem, em entrevista coletiva, o secretário Adolfo Sachida
sustentava que o Brasil fora o mais rápido a responder, do ponto de vista da
economia, e o secretário Waldery afirmou que é o segundo emergente que mais
está gastando, atrás apenas do Chile. Isso não é um campeonato de despesa. O
que é preciso é fazer o dinheiro realmente chegar. Nesta quinta-feira é que
começará de fato a acontecer o pagamento da primeira parte do auxílio
emergencial. Anunciar medidas não é o mesmo que realizá-las. É preciso reduzir
o tempo dedicado à reescrever a história para se empenhar mais em garantir a
execução das medidas.
O banco BNP Paribas estima que o deficit primário este ano
poderá chegar a 7,3% do PIB, com uma combinação de aumento de gastos e queda de
arrecadação. Ao final desta crise, a dívida bruta poderá alcançar um patamar
recorde, de 90% do PIB. Já o UBS tem números menos piores. O deficit este ano
pode ir a 7%, com endividamento de 86% no ano que vem. Mas ele acredita que até
em 2021 o governo teria um forte deficit primário, de 4% do PIB.
A conta será salgada. O mais importante agora é implantar o
que vem sendo anunciado. E no momento seguinte preparar o plano da reconstrução
da economia e dos parâmetros fiscais, para o dia em que este pesadelo passar.

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