Na terça-feira o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta,
deu mais uma de suas coletivas diárias. Mostrou-se olímpico, seguro de seu
papel e de seu cargo. Mandetta tem hoje mais estabilidade do que Jair
Bolsonaro. O presidente pode demiti-lo – os generais não deixam.
A impotência presidencial tem um quê de conto de bruxas. O
presidente vai fazer a barba de manhã e pergunta ao reflexo de si mesmo:
“Espelho, espelho meu, existe algum ministro mais querido do que eu?”. O
espelho responde, dá o nome e o endereço, mas Bolsonaro, corroído de ciúme, não
tem poder para expulsá-lo da pasta. Está reduzido ao papel de
presidente-café-com-leite-muito-embora-bravateiro. Sai enfezado do Palácio da
Alvorada e se põe a berrar sobre a crueldade ministricida de sua caneta, uma
senhora canetona, que é maior do que a caneta dos outros (ele e sua obsessão
com símbolos fálicos).
Palavras ao vento. Contra Mandetta a caneta do narcisista
que desconhece a beleza vale menos do que uma aspirina. O sereno ministro da
Saúde sabe disso e, por saber, tripudia. Na terça-feira, em sua coletiva,
disparou recados ácidos – ainda que elegantes – contra o chefe que não o
chefia. Entre outros venenos, amaldiçoou as fake news (gênero narrativo adorado
pelo café-com-leite) e as redes sociais (o ambiente predileto do estadista
avesso à máquina estatal).
“As fake news, esse final de semana, fizeram um gráfico
igual àqueles gráficos da epidemia”, diagnosticou o ministro. “Fake news foi o
que mais subiu, subiu bem mais que o número de casos (de covid-19).”
Mandetta aproveitou para denunciar que circulam perfis
falsos como se fossem dele e avisou com total explicitude: “Não sou de mídia
social, não gosto; gosto do mundo real. Vou trabalhar essa epidemia no mundo
real. O que eu tiver que falar, não acreditem em nada que não seja falado aqui
(nas coletivas diárias, diante das câmeras de TV). (…) Eu não posto nada, eu
não comento nada, eu não faço nada nesse mundo virtual”.
O que ele está dizendo, em suma, é que adota o estilo oposto
ao do chefe que não é chefe. Este, abduzido pelas fantasmagorias imaginárias do
seu conto de bruxas, acha que governa pelo Twitter, pelas lives e pelo
histrionismo de suas milícias virtuais. Em sua fantasia de filme de terror,
alimenta-se da bajulação dos seus fiéis fascistinhas de WhatsApp, que sabotam o
isolamento e insultam os chineses com ofensas racistas. Bolsonaro substitui a
burocracia governamental pelos urros virtuais dos seguidores e acredita que
assim deixa para trás a “velha política”.
O resultado prático de seu delírio é muito simples e
palpável: em cada um de seus atos acentua a dissolução dos regramentos da
administração pública em favor da dinâmica dos “engajamentos”, das “curtidas” e
do irracionalismo das redes. Para ele, os algoritmos opacos dos conglomerados
globais que monopolizaram as comunicações na era digital são a mais perfeita
tradução da vontade do povo. Sim, é uma sandice, mas é nessa sandice que ele
acredita. O triunfo de sua crença acarretará a derrocada do Estado, da
República, da política e da democracia. Bolsonaro gosta de fake news porque vê
o Estado, o governo, a República, a política e a democracia como um embuste a
ser destruído. Ele e as fake news nasceram um para o outro. Nasceram um do
outro.
Razoável, o ministro da Saúde rejeita as doideiras do
presidente e veste o colete do SUS para apostar no caminho inverso. Com razão,
parece entender que as fake news concentram uma ameaça tão ou mais grave do que
a pandemia. O poder público fica anulado se não puder contar com informações
baseadas na ciência e se essas informações não servirem de base para o debate
público e para a orientação das pessoas e da sociedade. Sem fontes confiáveis e
um sistema organizado de comunicação, não há governança para a crise.
A indústria das fake news – que hoje no Brasil está a
serviço do bolsonarismo – opera para minar a confiança do público nas
autoridades, na política, na universidade, na ciência e na imprensa. No longo
prazo, essa indústria fabrica fanatismo e clamor por uma tirania de extrema
direita no Brasil. No curtíssimo prazo, amplifica o número das mortes que virão
com o coronavírus e agrava a recessão econômica que virá depois. Isso mesmo. Em
sua narrativa perversa, as fake news do bolsonarismo dizem defender a economia
e os empregos, mas, ao patrocinarem a explosão do número de casos e o colapso
do sistema de saúde, produzirão a desagregação social, com violência e
criminalidade ainda mais generalizadas, e isso tornará mais improvável qualquer
recuperação econômica.
Será difícil enfrentar essa indústria, que conta com o apoio
esgoelado do presidente-café-com-leite. Ele tem pouco poder (não consegue nem
falar grosso com o ministro da Saúde), mas a indústria em que ele joga suas
fichas tem uma capacidade gigantesca de produzir estragos. E, por enquanto, não
há vacina contra a usina de fraudes desinformativas com que o presidente e suas
falanges robóticas vêm infestando a sociedade brasileira.
*Jornalista, é professor da ECA-USP

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