Obsessões com a potência masculina tornaram-se lugar-comum
na psicanálise. A do presidente Jair Bolsonaro se fixa no objeto caneta, a
pequena haste capaz, segundo seus manifestos recorrentes, de num rabisco
materializar os desejos do chefe de Estado.
É uma lástima para ele —e ótima notícia para o Brasil— que a
tinta de sua esferográfica esteja ficando escassa na crise. Ameaçou usá-la para
demitir o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, mas foi impedido por uma sensata
reação palaciana.
Cogitou deslanchar uma campanha publicitária para incentivar
a circulação de pessoas em meio à epidemia, mas foi bloqueado
pelo Supremo Tribunal Federal.
Decretou a inclusão de igrejas em listas de estabelecimentos
cuja operação não pode ser restringida em nome do combate à Covid-19, mas seu
ato tem sido questionado em circunscrições locais.
Sonhou em voz alta com comandos que pudessem atropelar
ordenanças estaduais e municipais de combate à emergência sanitária, mas foi
advertido, também à luz do dia, por autoridades legislativas e judiciárias de
que os sortilégios terão vida curta.
Na quarta-feira (8), o que era uma advertência se tornou
decisão cautelar da corte constitucional. A Ordem dos Advogados do Brasil
obteve do ministro Alexandre de Moraes o reconhecimento
liminar de que o Executivo federal não pode desfazer unilateralmente as
determinações municipais e estaduais de limitar atividades.
Com essa torrente de vetos impostos ao seu poder, o
presidente da República veio sendo reduzido a uma espécie de crítico teimoso e
falastrão do que todas as outras autoridades, inclusive no seu governo, estão
fazendo. Quanto mais ataca e ameaça, menos pode.
A situação, surreal, escapa à lógica política que prevalece
em quase todos os países democráticos, onde governantes ganham popularidade ao
alinhar-se aos protocolos que vão sendo cristalizados pela comunidade
científica e sanitária.
Foi essa a maneira, no entanto, que a institucionalidade
brasileira encontrou de atenuar a capacidade destrutiva do presidente Jair
Bolsonaro em meio a uma crise em que estão em jogo a vida e a renda de milhões
de cidadãos.
A fala
em cadeia nacional no dia 8 mostra que a ignorância presidencial não
ficou inofensiva. Bolsonaro, fantasiado de curandeiro, direciona a máquina do
governo federal para apostar em um dos vários fármacos em fase de testes contra
a doença —numa politização descabida do uso da cloroquina.
Trata-se de imitação tosca do que faz nos Estados Unidos seu
congênere e modelo Donald Trump, que ao menos já assumiu atitude mais
colaborativa contra a pandemia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário