Jair Bolsonaro foi
educado em quartéis. Como não se conhecem trabalhos de sua autoria sobre
história do Brasil, matemática e balística, disciplinas de interesse dos
militares, o mais perto que desempenhou de uma atividade científica pode ter
sido esfregar cavalos. Isso não o impediu de, como presidente da República, dar
palpite sobre o coronavírus, minimizando-o ("Uma gripezinha! Um
resfriadinho!"), estimulando as pessoas a correr o risco de contraí-lo e
jogando com a saúde da população.
A audácia de Bolsonaro ao desafiar a comunidade científica
mundial, ofender os já milhares de mortos e tentar esvaziar o seu próprio
ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta —que ele só não demitiu na
segunda-feira porque foi peitado por gente ainda sã no governo— não tem
equivalente nos anais.
Para piorar, seu estilo de governar, arrogante, despótico e
indiferente às consequências, tem sido replicado por vários de seus auxiliares,
não por coincidência também autorizados a pontificar sobre assuntos além das
respectivas solas.
Com sua vocação para a chanchada, o ministro da
Educação, Abraham Weintraub,
por exemplo, criou um problema internacional com uma piada em que comparou os
chineses ao Cebolinha. A secretária de Cultura, Regina Duarte, postou um vídeo
falso em que o ministro da Saúde parecia autorizar o uso da cloroquina como um
elixir mágico contra o vírus —o que Regina Duarte tem a ver com saúde? Em que
ciência se basearam tantos ministros para pregar que só os maiores de 60 anos
devem se confinar? E, nesse caso, quem autorizou o general Augusto Heleno,
macróbio e portador do vírus, a desafiar as autoridades sanitárias e quebrar a
quarentena que milhões de brasileiros prudentes estão cumprindo?
É um governo basicamente de amadores. Por isso essas pessoas
foram escolhidas para integrá-lo. As exceções um dia se envergonharão de ter
participado dele.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen
Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

Nenhum comentário:
Postar um comentário