A notícia de que Jair Bolsonaro, depois de tanto desafiar as
regras de bom senso em uma pandemia, foi contaminado pelo novo coronavírus
deflagrou um outro surto: a ira irracional daqueles que colocam adesivos
antifascistas em seus perfis nas redes sociais e passaram a desejar a morte do
presidente da República.
A onda não ficou restrita à internet. Chegou a colunas de
jornais, travestida de exercício filosófico-linguístico, mas cujo único
resultado prático é vitimizar o presidente que até agora destilou sua falta
completa de empatia diante da tragédia. Perde a imprensa, perde o País,
perdemos todos nós, que nos desumanizamos a cada dia, sem perceber que, aos
poucos, nos transformamos naquilo que mais desprezamos.
Bolsonaro não ganhou apenas corações e mentes dos minions
que os segue nas portas dos palácios e em posts ensandecidos. O presidente
conseguiu comprometer o fígado e o cérebro de parte daqueles que o criticam,
num jogo que apenas rebaixa todos ao seu patamar e permite que ele ganhe
espaço, porque no lodaçal é imbatível.
Não há nada que justifique que democratas, pessoas e
instituições se ponham a “torcer” pela morte desse ou daquele. Muito menos as
indignidades de Bolsonaro, uma vez que é justamente contra elas que se conclama
a união de esforços daqueles que prezam a vida, a ciência, a educação, a cultura
e a civilidade.
Sim, o presidente colhe de volta a absoluta falta de
compaixão que cuspiu na cara de um país estarrecido ao longo dos últimos cinco
meses. Andou a cavalo, passeou de jet ski, subiu em boleia de caminhão, assoou
o nariz e cumprimentou velhinhos em seguida, receitou cloroquina sem ser
médico, mandou invadirem hospitais, chegou ao cúmulo de vetar o uso de máscaras
e passeou por aí já infectado, possivelmente transmitindo coronavírus para os
poucos com os quais diz se importar.
Diante de tanta atrocidade, merece morrer? Não. Porque esse
pensamento nos prende à barbárie que o presidente, sua família e seu núcleo
insano tratam de cultivar desde antes mesmo da campanha, como terreno fértil
para permitir a supressão da razão, único ambiente em que alguém tão virulento
pode ser eleito presidente da República.
Aqueles que são de fato a antítese de Bolsonaro só têm um
caminho: torcer pela medicina, pela ciência e pela sua cura. E para que ele
responda diante dos órgãos competentes pelos crimes de responsabilidade que
cometeu e diante dos eleitores pelas vezes em que brincou com a vida como um
déspota de quinta categoria.
O oposto de Bolsonaro não é a hashtag “força, corona”. Essa
é sua consagração, seu triunfo, o caminho para sua perpetuação.
Construir de forma inteligente e lúcida o caminho para que
nos curemos de Bolsonaro significa mostrar com dados e evidências o quanto seu
comportamento colocou em risco não apenas a si mesmo e seus familiares, mas um
país inteiro.
Como sob a falácia de salvar a economia acabou condenando
vidas e boicotando qualquer chance de minimizar o estrago econômico.
É acompanhar seu tratamento e repetir aos incautos que não,
cloroquina não tem efeito preventivo nem curativo comprovado. E que um
presidente da República virar mascate de remédio e impor a um ministério sem
ministro há quase dois meses que enfie esse remédio goela abaixo da população é
mais um dado que o inabilita para exercer o cargo que exerce.
A morte de Bolsonaro em nada contribuiria para que o Brasil tivesse alta de sua doença crônica e generalizada, em que a política virou uma peste e que, ao se curar de um vírus, você automaticamente cai acamado por outro ainda mais letal. A vacina para isso se chama democracia, já está disponível e permite a imunidade a esse comportamento de rebanho que nos desumaniza.

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