Muitos não creem na transformação de Jair Bolsonaro ocorrida
nos últimos dezessete dias, coincidindo com o desvio que precisou fazer de dois
alçapões armados no seu caminho: a prisão de Fabrício Queiroz e a busca,
apreensão e quebra de sigilo de deputados amigos. Notou o presidente que o
cerco era para valer e não estava adiantando gritar, ameaçar e intimidar. Era
preciso calar para ganhar tempo, armar-se para resistir.
O silêncio se fez acompanhar de ações presidenciais típicas,
como inaugurações, visitas a Estados atingidos por calamidades, comando sóbrio
de reunião do conselho de ministros. A suspeita de que possa ser blefe,
contudo, existe. Em pessoas com a sua idade e história política é mais seguro
avaliar o que permanece. Por isso a pertinência do teste sobre o que mudou.
Na postura com relação à política interna, tanto a
permanência quanto a mudança são mais visíveis. O canhestro solo de acordeão da
Ave Maria, como fundo musical para a primeira manifestação de pesar, em seis
meses, pelas milhares de mortes da pandemia, dispensa definições.
Como não se vê comportamento racional, também, na
integração, em pleno isolamento social, ao piquenique da data nacional dos
Estados Unidos. Buscar o Centrão, oferecer cargos, dirigir esforços políticos à
remontagem das relações com os poderes é mudança perceptível mesmo que seja só
para evitar o impedimento.
Na política externa, porém, em que as transformações
precisam ser percebidas por estrangeiros, sociedades de diferentes culturas,
investidores mais bem cacifados do mundo, a terra é arrasada. Por isto mesmo
está aí o teste de fogo das metamorfoses do presidente. Para demonstrá-las
teria de cumprir uma série de tarefas.
Restabelecer a relação com a China, por exemplo, prioridade
absoluta. Cassar o discurso gratuitamente agressivo, tarefa imediata. Os
ataques não são inócuos: se a China levar a bom termo a procura de outro
fornecedor de soja de nada adiantarão os esforços da ministra da Agricultura e
o choro do agronegócio, que não suportará calado a debacle.
Urge, também, abandonar a insistência na relação exclusiva
com os Estados Unidos e voltar a ter a confiança de todos os parceiros com quem
o País sempre se relacionou. Para manter aquela histórica amizade não é preciso
adular ou rebaixar-se. Mimetizar, pior ainda, é tosco.
Ganhar condições de voltar a falar com a Europa, mesmo que o
acordo com o Mercosul fique no telhado até o fim deste mandato, é necessário
fazer, primeiro, uma medida elementar: demitir o ministro do Meio Ambiente. Em
seguida, adotar uma política efetiva de combate ao desmatamento e aos incêndios
amazônicos. Só depois tratar do protecionismo econômico que, certamente,
aumentará seu peso nas negociações comerciais do pós-pandemia.
Com o Oriente Médio, tudo começa na desistência de
transferir a embaixada em Israel para Jerusalém. Com a América do Sul,
estabelecer uma relação normal com o novo governo da Argentina e voltar a ter
um canal direto com a Venezuela. Hoje, toda informação que o Brasil tem de
Caracas é de segunda mão, um vexame.
Os votos na ONU, no que se refere aos direitos humanos e à
proteção das minorias e vulneráveis, precisam de correção radical de rumo. Bem
como o restabelecimento das relações multilaterais e as bilaterais com os
países parceiros desde sempre. Sem poder econômico, militar e tecnológico, o
País praticava intensamente o exercício do “soft power”, diplomacia dizimada
pelo governo do presidente que isolou o Brasil do mundo.
O teste de mudança teria de apresentar resultados antes da eleição presidencial americana. Se Donald Trump vencer, Bolsonaro não deixará de ter como amigo pessoal o presidente dos Estados Unidos; se, ao contrário, vencer Joe Biden, é o Brasil que se dará melhor ao livrar-se do mau modelo, ficando livre para construir uma nova política externa.

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