O governo Bolsonaro finalmente recuou, ainda que sem
convicção e motivado pelo medo. Mas será que reações mais incisivas por parte
do Supremo Tribunal Fderal, do Ministério Público e do Congresso vão conseguir
preservar, num sentido mais substantivo, nossa democracia até 2022?
O sentimento de Bolsonaro é o de estar cercado. Há pelo
menos cinco movimentações simultâneas que ameaçam o governo: os dois inquéritos
que correm no Supremo, o das fake news e o que apura as manifestações
antidemocráticas, o inquérito da Procuradoria-Geral da República que investiga
a interferência na Polícia Federal e a investigação do Ministério Público do
Rio sobre as rachadinhas de Flávio Bolsonaro. Mais ou menos em suspenso,
aguardando o desenvolvimento dos fatos, estão os numerosos pedidos de impeachment
no Congresso e os processos que podem cassar a chapa Bolsonaro-Mourão no TSE.
Na semana do dia 14 de junho, o mundo pareceu desabar para
Bolsonaro: logo no dia 15, a PGR pediu a prisão dos bolsonaristas do grupo 300
que ameaçaram o STF e o ministro Alexandre de Moraes; no dia 16, o STF
determinou buscas, apreensões e quebras de sigilo no inquérito das fake news,
tendo como alvo youtubers influentes e grandes empresários ligados ao
bolsonarismo militante; no dia 18, a pedido do Ministério Público do Rio, as
polícias do Rio e de São Paulo efetuaram a prisão de Fabrício Queiroz, em
Atibaia (SP).
Duas semanas depois, o Senado ainda aprovou um projeto de
lei que pode dar mais instrumentos de investigação e assim jogar luz sobre as
ações do gabinete do ódio.
Bolsonaro se recolheu, deixou de comparecer ao cercadinho
para estimular a militância, parou de ir às manifestações semanais cotra os
Poderes e tentou substituir um hiperideológico Weintraub por um Decotelli mais
técnico. O Twitter do presidente mudou de tom e trocou cotoveladas por um tom
mais institucional de celebração das realizações do governo. Youtubers
bolsonaristas começaram a moderar o discurso e a apagar vídeos antigos com medo
do STF. Apenas o negacionismo da gravidade da Covid segue em ritmo alucinado e
delirante.
As últimas semanas trazem a esperança de que, apesar do
sufoco, talvez nossas instituições tenham força para aguentar o tranco de
quatro anos de Bolsonaro no poder. Mas, ainda que consigamos preservar a
democracia, num sentido formal, vamos olhar para trás em 2022 e contar os
mortos da Covid que poderiam ter sido salvos, vamos medir com assombro o
desmatamento da Amazônia e teremos a gigantesca tarefa de reverter o desmonte
das políticas federais de educação, ciência e cultura.
*Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas da USP, é doutor em filosofia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário