Em sua primeira encarnação, a mais autêntica, o governo
Bolsonaro se deixou pautar pela chamada ala ideológica, que fazia e desfazia
ministros (agora só desfaz) e mantinha o superego do presidente, que jamais
fora muito atuante, prisioneiro. O homem chegou a divulgar um vídeo com cenas
explícitas de urofilia.
É claro que não deu certo. Uma das fantasias do bolsonarismo
ideológico rezava que negociar com parlamentares tradicionais era pecado, de
modo que nenhum projeto relevante avançou no Congresso. A exceção é a reforma
da Previdência, mas muito mais porque o Legislativo estava empenhado em fazê-la
do que por iniciativa do governo.
A única coisa que o presidente conseguiu fazer foi, através
de decretos, portarias e nomeações, enfraquecer instituições e políticas
públicas, como a preservação ambiental, o desarmamento etc.
Veio então a segunda encarnação, na qual parecia que os mais
pragmáticos militares dariam as cartas. Não deram. Quer dizer, até conseguiam
fazer com que o presidente, por períodos limitados, contivesse seus piores
impulsos, mas ele logo sucumbia a si mesmo. Também não deu certo. Vimos
ampliar-se a presença militar no governo, mas sem nenhum aumento na eficácia da
ação do Planalto.
Vieram então a epidemia, a recessão e o avanço de
investigações criminais que podem comprometer o entorno presidencial. Bolsonaro
sentiu que seu mandato estava em perigo, engoliu a seco a ideologia e
entregou-se ao centrão. É a terceira encarnação.
Nada indica que o governo vá ganhar em funcionalidade, mas a
nova configuração política serviu para desagrilhoar o superego do capitão
reformado, que reduziu significativamente as barbaridades e provocações que
exarava em ritmo semanal.
Pessoalmente, acho que o impeachment de Bolsonaro é uma obrigação moral da sociedade, mas é preciso reconhecer que, mantido sob pressão, Bolsonaro diz e faz menos besteiras.

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