Terça passada lembrei o vaticínio de Joseph Pulitzer de que
democracias só morrem onde a imprensa tiver morrido antes. Na tarde do dia
seguinte, 1.º de julho, a democracia brasileira foi oficialmente revogada por
decisão “do pleno” do STF e o infausto acontecimento não ganhou mais que pés de
matéria por aí…
A opinião pública mal soube que o ministro Marco Aurélio
tinha proposto que ao menos os atos do Executivo e do Legislativo sufragados
pelos 140 milhões de eleitores não pudessem mais ser anulados por “decisões
monocráticas”, ainda que “o pleno” mantivesse esse poder. Tomou de 10 a 1. Eles
solenemente “transitaram em julgado” a confirmação da própria onipotência.
Valem mais, cada um sozinho, segundo eles mesmos, que o resto do Brasil inteiro
somado. Legal ou ilegal não é mais o que disserem os representantes do povo
reunidos em congresso, mas o que cada um deles quiser que seja na hora que for.
A decisão ocorreu na sequência de Alexandre de Moraes,
aquele que também falseou o currículo Lattes, mas é branco, prorrogar por mais
seis meses o inquérito triplamente ilegal das “fake news”. Horas depois o
Senado aprovou o monstrengo batizado de “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade
e Transparência na Internet”, com a qual tenta, em vãos contorcionismos,
criminalizar o uso da rede somente pelos simpatizantes de Jair Bolsonaro.
É curioso observar essas circunvoluções na execução de algo
tão explicitamente endereçado. Mas elas têm uma razão de ser. A menos que os
autores da façanha sejam donos de ¼ dos consumidores do planeta e exportadores
maciços de produtos de trabalho vil por preço vil, o mundo não aceita mais
governos instalados pela violência. Até o eterno Putin precisa fazer eleições…
e ganhar. E se há algo de que as excelências têm tanta certeza quanto você e eu
é que no voto os comedores de lagostas, que não baixam, para camarão que seja,
nem nas pandemias, definitivamente não levam MAIS NADA neste país que reduziram
a escombros.
É aí que entra a voz da experiência.
Foram três os fatores que levaram o PT ao poder conforme o
histórico plano que Luiz Gushiken vendeu a Lula e José Dirceu na ressaca da
Queda do Muro, lá no início dos anos 90, quando essas meninas bonitas que hoje
nos contam “a história do Brasil” nas TVs estavam nascendo: controlar os fundos
de pensão das estatais, “o maior dinheiro do país”, tomar o Sindicato dos
Bancários para ter acesso às movimentações financeiras dos inimigos e cooptar a
Igreja Católica que tinha a capilaridade nacional sem a qual não se chega ao
poder.
“O maior dinheiro do Brasil” bancou o “Mensalão”, que
ensejou “o maior assalto da história da humanidade” (segundo o Banco Mundial),
cujo resultado foi “lavado” pelo campeão dos “campeões nacionais” do lulismo,
aquele salvo da Lava Jato pelo golpe de Rodrigo Janot. Continua intacta a
lavanderia dos dois ésleys, com filiais espalhadas por 60 países do globo.
A ocupação do Sindicato dos Bancários instituiu a PT-POL (de
“polícia do PT”), famosa nas redações dos anos 90, que vazava os podres dos
inimigos do partido e rendeu-lhe a marca do “monopólio da ética na política”,
sem a qual não teria chegado “lá”. Já regado a dinheiro de Estado, esse ramal
evoluiu para um ministério inteiro do ódio que alimentava não só os aliados do
partido nas redações tradicionais cevadas no “jornalismo de acesso” que tanto
fez pela desmoralização da profissão, mas também a famigerada “esgotosfera
petista na internet” que gozava oficialmente de privilégios de acesso ao presidente,
e mais uma vasta rede de “organizações não governamentais governamentais” sem a
sustentada guerrilha das quais o partido não teria durado 13 anos no poder nem
colocado tantos ministros no Supremo.
Mas o mundo dá voltas...
A partidarização da Igreja Católica fez a maioria dos
brasileiros mudar de religião. Não por acaso, no mesmo 1.º de julho fatídico o
ministro Fachin, que veio desse catolicismo militante, teve a ideia de propor
que também o “abuso do poder religioso” seja declarado “antidemocrático” o
bastante para derrubar um governo eleito.
E o outro grande imprevisto foi que, nesse meio tempo, as
redes sociais evoluíram para dar voz à “maioria silenciosa” e inverteram a
direção dos tiros dessa arma. E nem todo o dinheiro das campanhas eleitorais
estatizadas foi capaz de evitar o estrago. Recentemente Toffoli tentou se
apossar de todo o banco de dados do Coaf e foi impedido. Seria a luta pelo da
Lava Jato no MP Federal, ao lado da armação reacionária para prender a polícia
depois de soltos os ladrões, mais uma tentativa de reestruturar a boa e velha
turbina de chantagem política?
Imaginar que a fera da censura e todas as outras bestas
teratológicas que o STF está pondo à solta ficarão circunscritas aos alvos que
serviram de pretexto para tirá-las da jaula é infantil. E insistir num modelo
chinês de internet, como querem os patrocinadores de Rodrigo Maia, poria o
Brasil definitivamente fora do mundo civilizado.
Não passarão! E nenhum juramento de amor à democracia
livrará a imprensa que não tomar a tempo a devida distância dessa guerra suja
da expulsão do mercado.
JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

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