Problema de saúde do presidente foi precedido e sucedido
por desarranjos políticos que ameaçam segundo biênio do governo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a se queixar
de dor de cabeça no início da tarde da segunda-feira. Os sintomas,
posteriormente descritos por seu médico, Roberto Kalil Filho, como de “estado
gripal”, não o impediram de receber os presidentes da Câmara e do Senado,
Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), no Palácio do Planalto, às 17h.
A reunião, que não estava na agenda, foi convocada em função
da trava nas votações do Congresso evidenciada pelo adiamento da leitura do
relatório da regulamentação da reforma tributária às 16h na Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Além de Lula e dos dois parlamentares,
participaram o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o ministro da Secretaria de
Relações Institucionais, Alexandre Padilha.
O presidente queixou-se de dor de cabeça na
reunião, que acabou às 18h. Saiu de lá diretamente para a unidade do hospital
Sírio Libanês em Brasília. Lá fez ressonância magnética e tomografia. Na
entrevista dos médicos que o atenderam há dois meses, quando de sua queda no
banheiro, e da cirurgia desta terça, o diagnóstico foi o de que se rompeu a
cápsula do hematoma decorrente da queda.
O hematoma não se formou na nuca impactada pela queda, mas
na região posterior do cérebro. Tinha três centímetros e migrou em função da
chacoalhada na cabeça, explicou o cirurgião Marcos Stavale, aquele que, no
pelotão de médicos que respondeu às perguntas dos jornalistas, mais se esforçou
para se fazer entendido. Rogério Tuma, médico que acompanhou o presidente desde
a queda, explicou que o acúmulo de líquido no hematoma é comum em pessoas
idosas.
A opção por uma cirurgia o removeu para o Sírio Libanês em
São Paulo. Lula deixou Brasília às 10h30. Meia hora antes, o presidente da CCJ
do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que havia delegado a presidência da
sessão que adiou a leitura do relatório da reforma tributária para um colega da
oposição, Marcos Rogério (PL-RO), soltou uma nota informando da nova sessão,
marcada para o meio-dia da terça.
Lula viajou para São Paulo acompanhado de Ana Helena
Germoglio, médica da Presidência, e da primeira-dama, Janja da Silva, e foi
recebido na Base Aérea de Congonhas por Kalil. Segundo Ana Helena, esteve
consciente e conversou durante toda a viagem. A cirurgia começou à 1h30 da
terça feira. Stavale, que participou do procedimento, disse que a cirurgia
durou duas horas. Além do fechamento da cápsula, foi colocado um dreno que lá
permanecerá até que a secreção esteja limpa.
Stavale e Kalil asseguraram que não haverá sequelas
decorrentes do procedimento e que Lula poderá retomar vida normal, inclusive,
com viagens internacionais. A permanência na UTI será de 48 horas, mas o
retorno a Brasília não acontecerá antes da próxima semana.
Antes que Lula acordasse nesta terça, a Polícia Federal já
estava na rua. Uma operação iniciada pela Controladoria-Geral da União,
reunindo ainda o Ministério Público Federal e a Receita, foi deflagrada às 6h
da manhã. Os órgãos de investigação contaram com apoio da Agência Americana de
Investigações de Segurança Interna por conta dos indícios de lavagem de
dinheiro. O alvo foi uma suposta organização criminosa envolvida em fraudes
licitatórias, desvio de recursos públicos e corrupção.
O esquema se desenrolou no Departamento de Obras Contra as
Secas (Dnocs) e envolve desvio de recursos públicos decorrente de emendas
parlamentares e convênios para empresas e agentes ligados a administrações
municipais. Servidores públicos supostamente foram cooptados para obter
vantagens ilícitas no direcionamento e na execução de contratos com sobrepreço
e propina. A lavagem de dinheiro se valeu de empresas controladas por
“laranjas” e com grande fluxo de dinheiro capaz de mascarar a origem dos recursos
desviados. A movimentação envolvida é de cerca de R$ 1,4 bilhão.
Foram 43 mandados de busca e apreensão, 17 mandados de
prisão preventiva e sequestro de bens, na Bahia, Tocantins, São Paulo, Minas e
Goiás. Em Salvador, um dos alvos da operação é o empresário José Marcos Moura,
conhecido como “Rei do Lixo”, que foi preso. Suas empresas prestaram serviço
para a gestão do ex-prefeito ACM Neto, do União Brasil, em Salvador. A operação
atingiu ainda um primo do deputado federal do União, Elmar Nascimento (BA), o
vereador Francisquinho Nascimento.
A exemplo do que aconteceu com a operação que, em 2015,
atingiu ex-dirigentes da Hemobrás, no Recife, parte do dinheiro em espécie, R$
220 mil dos R$ 700 mil que estavam em sua posse, segundo Camila Bomfim, do g1,
foi jogada pela janela. O Congresso foi tomado pela expectativa de que o
capítulo seguinte atingirá a Codevasf, onde Elmar Nascimento tem aliados bem
plantados.
A cirurgia não foi capaz de conter a pressão política em
Brasília. A portaria que normatiza a liberação das emendas parlamentares foi
publicada em edição extra do “Diário Oficial” às 19h desta terça, incorporando
muitas das exigências do ministro Flávio Dino pela transparência,
rastreabilidade e planejamento para a execução das emendas parlamentares.
No mesmo momento, Lira dava uma entrevista em que não
demonstrava qualquer boa vontade com o andamento da pauta. Disse que se a
regulamentação da reforma tributária chegar na quinta à noite à Câmara, não
será possível votar esta semana e que o Congresso encontrará caminhos para
cortar despesas distintos daqueles propostos pelo governo. Naquele momento,
Lula ainda não havia completado nem 24 horas da cirurgia.

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