segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

FRUSTRAÇÃO COM PACOTE FISCAL EXIGE MAIS AÇÃO DO BC

Editorial Valor Econômico

O aperto monetário será maior para conter uma inflação cujas expectativas estão prestes a superar a meta também em 2025, um preço caro demais que poderia ser evitado sem muito sacrifício - por enquanto

O dólar voltou a subir acima de R$ 6 na sexta-feira, um dia após o governo abalar mais uma vez a confiança dos investidores ao não cumprir a promessa de fazer um ajuste estrutural nas contas para sustentar o regime fiscal e ainda anunciar que abdicará de R$ 35 bilhões em receitas. A divulgação simultânea de que pretende isentar de Imposto de Renda das pessoas que ganham até R$ 5 mil deu nova confirmação de que o Planalto apenas fará remendos até a próxima eleição, em 2026. O pacote deixou de lado medidas mais firmes para compatibilizar ritmos díspares de despesas, que estão minando as bases do regime fiscal e empurrando as despesas discricionárias, como as de custeio da máquina pública, para fora do orçamento.

As medidas fiscais e a isenção do IR, inesperadamente companheiras, trouxeram mais desvalorização ao real em um momento delicado, em que as depreciações já ocorridas começaram a ser repassadas aos preços. O real desvalorizou-se 18,5% ante a moeda americana até sexta-feira, em um movimento que também eleva a dívida bruta. Segundo o Banco Central, a perda de 1% no câmbio acrescenta R$ 11 bilhões ao endividamento, se mantido por um ano. A maxidesvalorização, se persistir, cava mais fundo um rombo cujo ritmo o novo regime fiscal deveria moderar. Ainda que o fluxo comercial seja positivo, o financeiro não tem sido, e o fluxo de recursos de investidores externos para a bolsa refluiu nos últimos três meses (Valor, 29/11).

O anúncio que destruiu trabalho meticuloso de contenção do ritmo de aumento de gastos feito pela equipe econômica foi a isenção do IR. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado sabem disso e agiram como bombeiros, produzindo notas de mesmo tom, para restabelecer uma verdade que o presidente Lula ignorou ao insistir agora na isenção do IR. O senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) registrou que medidas de renúncia de receitas só serão examinadas no ano que vem “se, e somente se, tivermos condições fiscais para isso”. “Se não tivermos, isso não vai acontecer”, concluiu. Arthur Lira (PP-AL) afirmou que a questão será abordada “após análise cuidadosa e sobretudo realista de suas fontes de financiamento e efetivo impacto nas contas públicas. Uma coisa de cada vez”.

A primeira reação de quem terá de aprovar ou não o pacote fiscal e a isenção do IR foi a de salvar as medidas de Haddad, que por seu lado foram amortecidas e perderam muito de sua potência. É sabido que o Congresso tem menos resistência a fazer benesses, como a do IR anunciada, do que a elevar impostos, como o governo pretende com o tributo mínimo sobre os ricos. As notas do comando do Legislativo indicam que a princípio considera uma precipitação, se não um erro, o ajuste do IR.

O pacote de medidas deixou de lado as que melindravam ministros ligados a Lula. Depois de Luiz Marinho, do Trabalho, ameaçar pedir demissão, não se mexeu no seguro desemprego, um sorvedouro de recursos que aumenta quanto mais a economia se aproxima do pleno emprego, como agora. O abono salarial de dois salários mínimos levará 10 anos para ser reduzido a 1,5 mínimo - se for. Na Previdência, do ministro Carlos Lupi, apertaram-se regras de averiguação de renda para controlar fraudes no BPC, com mais pente finos que também serão feitos no Bolsa Família.

O resultado desse esforço ficará aquém do que a fragilidade fiscal exige. Economistas e consultorias pesquisadas pelo Valor estimam que as economias a se obter ficarão abaixo dos R$ 71,9 bilhões em 2025 e 2026, situando-se entre R$ 43 bilhões e R$ 53 bilhões. A Instituição Financeira Independente do Senado considerou o esforço insuficiente para eliminar déficits previstos de R$ 102,9 bilhões em 2025 (0,8% do PIB) e de R$ 107,8 bilhões em 2026 (também 0,8% do PIB).

As turbulências no câmbio, desta vez influenciadas inequivocamente pelos fatores domésticos, trazem mais problemas para o BC. O desemprego atingiu no trimestre encerrado em outubro seu menor nível desde 2012, quando a Pnad Contínua começou a ser feita. A renda real do trabalho ainda cresce, e ambos confirmam que a economia, mesmo com juros muito altos, avança acima de seu potencial. As atas do Copom contavam com forte reação da política fiscal que viesse em apoio - e não em sentido contrário, como tem sido - ao da política monetária. O pacote não atende essas expectativas. Ao avaliar vários desses dados ontem, o diretor de Política Monetária e futuro presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que “parece lógico você imaginar que vai precisar ter uma taxa de juros mais contracionista por mais tempo”.

Ao tratar de forma displicente a questão fiscal, o governo aumenta a conta a ser cobrada dos contribuintes. A de juros consumiu R$ 869,3 bilhões em 12 meses até outubro e subirá mais. O resultado final é um déficit em um ano de R$ 1,065 trilhão, também em alta. Cada 1 ponto percentual a mais na Selic acrescenta mais R$ 50,3 bilhões na dívida bruta. O aperto monetário será maior para conter uma inflação cujas expectativas estão prestes a superar a meta também em 2025. É um preço caro demais, que poderia ser evitado sem muito sacrifício - por enquanto.

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