Além da votação do pacote de gastos, emergência de saúde
do presidente compromete reforma ministerial e recomposição para 2026
A emergência médica por que passou Lula contribuiu para
trazer ainda mais complexidade a um cenário de fim de ano já bastante
desafiador para o governo. Por um lado, a preocupação com a saúde do presidente
produz uma espécie de espírito de colaboração, mesmo por parte dos
parlamentares até então dispostos a colocar a faca no pescoço do Planalto para
votar alguma coisa. Por outro, a ausência do presidente do comando da
articulação política faz com que esses mesmos atores desconfiem ainda mais da
capacidade dos que assumiram a linha de frente de entregar o que é preciso para
que as votações deslanchem: a execução das famosas emendas parlamentares.
No varejo, é essa a ambivalência que reina numa Brasília
ainda preocupada em entender a extensão da gravidade do quadro clínico do
presidente. A arriscada operação para removê-lo às pressas para se submeter a
uma cirurgia na cabeça em plena madrugada não foi nada trivial e suscitou uma
série de dúvidas a respeito da maneira como foi conduzido o pós-operatório da
queda que Lula sofreu em outubro.
Médicos e auxiliares do presidente
asseguram que todos os exames realizados nele depois do acidente doméstico não
demonstravam a existência de pontos de sangramento no cérebro. Mas os relatos
de que Lula já vinha se queixando de dores na cabeça havia alguns dias, e não
apenas na segunda-feira, levaram muitas pessoas próximas a se questionar se
faltou rigor maior na verificação de seu quadro de saúde, uma vez que o
incidente da queda no banheiro já tinha sido bastante grave.
Por fim, a decisão de removê-lo mesmo diante da constatação
de que estava com hemorragia cerebral provocou na classe política perplexidade
por, em pleno 2024, a capital do país ainda não contar com estrutura médica e
hospitalar confiável para que uma autoridade possa se submeter a um
procedimento de emergência sem precisar se deslocar a São Paulo.
Os ministros do Planalto, Fernando Haddad e o
vice-presidente Geraldo Alckmin precisarão se desdobrar para dar conta da
grande desconfiança que ainda paira sobre o Congresso quanto à real disposição
do governo de cumprir o compromisso de liberar as emendas.
Isso porque, mesmo depois das demonstrações nesse sentido,
líderes e dirigentes das duas Casas ainda acreditam que algum grau de
“combinação” entre o Executivo e o ministro Flávio Dino, do STF, deve ter
ocorrido para que ele tenha determinado novas regras para os desembolsos, mesmo
depois de o Congresso ter votado projeto disciplinando o assunto. Era no
convencimento do contrário que Lula atuava quando a emergência cirúrgica o
tirou de cena. Os ministros estão com o filme mais queimado com a cúpula do Legislativo,
e em relação a Alckmin pesa a avaliação de que não tem autonomia para bancar
certas negociações.
É até possível que essa “junta” consiga superar o ceticismo
e negociar com alguma eficiência, mas com esperadas concessões, a votação do
pacote de gastos. Mas a articulação de médio e longo prazo a que Lula também
vinha se dedicando — com o desenho de uma reforma ministerial com vista a
fortalecer o governo no plano imediato e a costurar uma aliança para 2026 —
para por completo até sua volta.
Ninguém tem delegação dele para pensar na dança das cadeiras
para atrair partidos como União Brasil, PP e PSD para sua órbita e evitar que
flertem com alguma candidatura do campo bolsonarista. Para que essas conversas
sejam retomadas, Lula terá de voltar a Brasília e convencer essas siglas de que
estará plenamente restabelecido e disposto a encarar a briga pela reeleição.
Diante de tudo o que está em jogo, é papo só para 2025, até porque ninguém
neste momento quer misturar a preocupação com a pronta recuperação de Lula com
especulações eleitoreiras de mau gosto diante de susto tão grande.

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