Paul Lafargue, escritor e jornalista revolucionário
franco-cubano, genro de Karl Marx, cuja obra foi o marco fundador do pensamento
marxista, escreveu, no final do século XIX, O DIREITO A PREGUIÇA. Na epígrafe
do primeiro capítulo cita Lessing “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar
e em beber, exceto em sermos preguiçosos”. E abre seu texto dizendo: “Uma
estranha loucura se apossou das classes operárias das nações onde reina a
civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e
sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor
ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até o esgotamento das
forças vitais do indivíduo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra essa
aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o
trabalho” ...... “Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda a
degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica”.
Já o grande intelectual alemão Max Weber
vai em direção contrária afirmando “o trabalho dignifica o homem” não só por
gerar renda e garantir a sua sobrevivência, mas por proporcionar a oportunidade
de estabelecimento de relações interpessoais e ser parte da realização pessoal.
Em TEMPOS MODERNOS, o genial cineasta e ator Charlie Chaplin
constrói uma contundente crítica ao processo produtivo capitalista, numa linha
de produção FORDISTA, onde o trabalhador mergulhava horas a fio em tarefas
repetitivas, enfadonhas e parciais, com total alienação do operário em relação
ao produto de seu trabalho. Não foi à toa que foram substituídos facilmente, no
mundo contemporâneo, por máquinas e robôs.
Já o pensador italiano Domenico De Masi lançou em 1975 o
livro O ÓCIO CRIATIVO, que teve grande repercussão global, mostrando que era
preciso se libertar da ideia tradicional de trabalho e combiná-lo com tempo
livre dedicado ao estudo, prazer, arte, esporte. Na tela inicial de seu
computador flutuava uma frase “O homem que trabalha perde tempo
precioso”.
Leon Trotsky, teórico e um dos líderes da Revolução Russa,
em seu Literatura e Revolução, adiantou traços que vislumbrava na vida da
futura sociedade socialista avançada e da utopia que imaginava para o ser
humano, libertado do excesso de trabalho pelos avanços da tecnologia e tendo
mais tempo para a família, as artes, os esportes, os estudos e o lazer,
escreveu “O homem se tornará imensamente mais forte, mais sábio e mais sutil;
seu corpo se tornará mais harmônico, seus movimentos serão mais ritmados, sua voz
mais musical...O tipo humano médio ascenderá às altitudes de um Aristóteles, um
Goethe, ou um Marx. E acima desse nível novos cumes surgirão”.
Como se vê a forma de se encarar o trabalho humano, suas
virtudes e pecados, provoca profunda discussão. Digo isso para preparar a
discussão que pretendo fazer no próximo artigo da PEC de autoria da deputada
federal Erika Hilton que propõe mudar a jornada de trabalho da escala de 6x1
com 44 horas semanais para o regime 4x3 reduzindo as horas trabalhadas por
semana para 36 horas.
O homem que trabalha perde um tempo precioso, como pensou
Domenico Massi, ou o trabalho dignifica o homem, como afirmou Max
Weber? Quais as consequências, problemas e conquistas, no
Brasil, se decidirmos reduzir a jornada de trabalho semanal para 36 horas?
Volto ao tema na próxima semana.

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