terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O ERRO DE BIDEN E O VELHO DISCURSO DA PERSEGUIÇÃO

Editorial Folha de S. Paulo

Ao conceder perdão ao filho, presidente culpa Judiciário; é antigo mau uso desse poder, que contudo não é despropositado

Não faz bem à biografia do ainda presidente dos Estados UnidosJoe Bideno perdão presidencial que ele concedeu a seu filho Hunter Biden, condenado na Justiça por ilícitos tributários e por ter mentido sobre o uso de drogas para comprar uma arma.

Hunter se declarou culpado nos dois casos e aguardava a sentença. Para tornar a situação do mandatário ainda mais vexatória, ele havia prometido que não se valeria dos poderes do cargo para beneficiar o filho.

Compreende-se o dilema pessoal. É obviamente difícil para um pai permitir que o filho sofra quando ele tem a possibilidade material de socorrê-lo. O conflito entre diferentes ordens de valores (dever familiar vs. dever republicano) é, desde os gregos, a matéria-prima das tragédias.

Vale lembrar que Biden não é o primeiro a fazer uso pessoal do poder de clemência. Ao fim de seu primeiro mandato, Donald Trump livrou vários colaboradores, além de ter perdoado o consogro Charles Kuchner, que fora condenado num processo federal —e, aliás, acaba de saber que será contemplado com o cobiçado posto de embaixador em Paris.

Bill Clinton e Jimmy Carter também favoreceram irmãos às voltas com a lei. Até Abraham Lincoln perdoou uma cunhada.

É claro que a longa série de maus precedentes não justifica a atitude de Biden. Para tentar fazê-lo, o presidente afirmou que Hunter é vítima de perseguição. Se ele não fosse filho do primeiro mandatário, disse, os processos a que ele respondeu, que não envolvem crimes capitais, dificilmente teriam avançado.

É difícil tanto corroborar como descartar essa afirmação. Seja como for, não favorece Biden o fato de ele reproduzir o discurso da perseguição judicial, largamente utilizado por Trump na campanha eleitoral e por uma legião de políticos em todo o mundo, aí incluídos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

Há, no poder de perdão concedido a presidentes, um inevitável cheiro de velharia, já que o instituto é a adaptação republicana do antiquíssimo poder de clemência dos reis. Daí não se segue, é claro, que ele seja despropositado. No sistema de freios e contrapesos, faz sentido existir uma instância que possa rever e eventualmente corrigir falhas ou exageros do Judiciário. É claro que esse tipo de poder precisa ser exercido com grande parcimônia.

Sem minimizar o drama pessoal, Biden errou ao perdoar Hunter. Quando o indivíduo aceita um cargo público como o de presidente, ele necessariamente sacrifica aspectos de sua vida privada.

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