Existe uma incapacidade de atenção prolongada. O estímulo
é mudar constantemente no ritmo da ponta dos dedos
Brain rot foi escolhida a palavra do ano pelo
Dicionário Oxford. Significa cérebro podre. O termo define a exaustão mental
provocada por uma imersão nas telas, pulando de um para outro tema que não
contém estímulo intelectual. Na verdade, o termo já foi usado pelo escritor
Henry Thoreau ainda no século XIX, em 1854:
— Enquanto a Inglaterra se empenha em curar a podridão da
batata, ninguém se empenhará em curar a podridão do cérebro, que predomina de
maneira muito mais vasta e fatal?
Na verdade, o esforço de atenuar as imperfeições da mente
humana, pelo menos a partir do Pós-Guerra, é bastante comovedor. Lembro-me da
popularidade de Erich Fromm, que escreveu inúmeros livros, estimulando a
liberdade individual, as possibilidades de uma existência amorosa. Como todo
intelectual alemão que sobreviveu ao nazismo, Fromm enfatizava julgamentos
independentes, mas já trazia também certa crítica ao capitalismo, refletindo
constantemente sobre os verbos ter e ser.
Houve tentativas mais sofisticadas até,
como a de R.D. Laing, um psiquiatra britânico que popularizou a expressão
double bind, significando as demandas contraditórias que tanto a sociedade
quanto a família introjetam no indivíduo.
Todo esse legado e muito mais evidentemente continua
disponível por aí. O que há de específico em nossa época é que, ao lado de
outros fatores, agora a própria tecnologia conforma nossa mente. O mergulho em
temas irrelevantes abre espaço a inúmeros novos problemas. O primeiro é a
incapacidade de atenção prolongada. O estímulo é mudar constantemente no ritmo
da ponta dos dedos. O segundo é evitar temas mais complicados. Num editorial, o
New York Times abordou o problema, afirmando que as pessoas com essa tendência
são facilmente atraídas por respostas simplórias para questões sérias. Na
verdade, isso pode ser também uma explicação para o sucesso das teorias
conspiratórias.
O velho Erich Fromm temia em sua época algumas variáveis
decorrentes dessa letargia mental: disponibilidade para o autoritarismo, pois é
fácil seguir líderes sem questionar o que propõem, ou mesmo a destrutividade,
tendência a eliminar os outros ou até o mundo como um todo. Diante de tudo
isso, era possível escrever páginas e páginas, como ele e tantos outros
intelectuais fizeram.
Agora, o buraco é mais embaixo. Discute-se no Brasil o
controle da internet, sobretudo a redução do discurso de ódio. Mesmo se o ódio
desaparecesse de cena, a crise continuaria, pois a tecnologia prosseguirá
moldando as mentes. Continuará produzindo cérebros podres aos borbotões.
Algumas visões mais pessimistas, como a de Martin Heidegger,
já previam alguns limites que a tecnologia contém. Não será muito fácil
articular um futuro. O mundo real continua produzindo crises profundas,
econômica, social, ecológica, grandes migrações. A tecnologia continua
influenciando mentes a aceitar soluções simples e a adotar uma visão
conspiratória do processo histórico.
Entregue a si mesmo, a engrenagem pode produzir regimes
autoritários. Cabe às mentes que ainda têm uma abordagem do mundo que não é
apenas instrumental, que ainda buscam um contato com a natureza, se dedicar a
algum tipo de pensamento reflexivo. Cabe a elas a busca de uma forma de
preservar o que resta de liberdade e democracia.
Será necessário, sobretudo, humildade. Não existem cérebros
podres e cérebros puros. Estamos todos atingidos pelos estilhaços de uma época,
a lógica capitalista, a destruição ambiental, o mergulho na irrelevância para
evitar as dores da reflexão.
Existem, na verdade, alguns sobreviventes, mais ou menos
inteiros, mas incapazes de virar o jogo sozinhos. Mesmo porque todos que
estudam o cérebro sabem que é um orgão extremamente maleável, capaz de se
alterar para atender a suas próprias necessidades. A compreensão desse
potencial plástico é importante para fugirmos dos julgamentos definitivos. Ao
contrário das batatas, o cérebro pode se curar.
Artigo publicado no jornal O Globo em 09/12/2024

Nenhum comentário:
Postar um comentário