Ninguém cioso dos direitos humanos deixará de se alegrar
com a queda de um dos maiores criminosos da nossa era. Mas o novo capítulo pode
ser mais brutal e dilacerar a Síria por gerações
Na manhã de ontem, enquanto o ditador sírio Bashar al-Assad
voava de Damasco para Moscou, os extremos se tocaram no coração dos sírios: por
um lado, alívio com a derrocada de uma tirania sanguinária de mais de 50 anos;
por outro, angústia com um futuro absolutamente imprevisível.
Entre muitos protagonistas internacionais envolvidos no
conflito, a Turquia, que apoia grupos rebeldes no norte da Síria, foi o mais
óbvio vencedor. Os sustentáculos do regime de Assad – Rússia e Irã (e o
Hezbollah, a milícia xiita libanesa apoiada por Teerã) – foram os maiores
derrotados. Israel e os EUA podem celebrar a queda da dinastia alauita ante a
maioria sunita. Mas a perspectiva de um governo jihadista em Damasco não
permite otimismo, nem para eles, nem para as minorias curdas ou cristãs na Síria,
nem para os Estados árabes sunitas do Golfo.
A dinastia Assad foi responsável por assassinar mais de 500
mil sírios. Desde o início da guerra civil, após a brutal repressão de
protestos na onda da Primavera Árabe, 600 mil sírios morreram, 13 milhões foram
deslocados, 6,8 milhões fugiram do país e, dos 15 milhões remanescentes, 90%
vivem na miséria.
O regime já estava em frangalhos em 2012, quando uma
coalizão heteróclita – que envolve desde fanáticos islâmicos ligados à
Al-Qaeda, o Estado Islâmico, paramilitares apoiados pela Turquia até milícias
curdas apoiadas por Estados ocidentais esperançosos de estabelecer uma
democracia – se rebelou. Mas os Assads eram aliados próximos da Rússia desde a
guerra fria, e Vladimir Putin não abandonaria suas bases navais na costa
mediterrânea síria. Assad tornou-se o mais importante aliado da teocracia
iraniana na região. Juntos eles perpetraram os maiores massacres no Oriente
Médio nos tempos modernos, sob a leniência da comunidade internacional,
marcadamente dos EUA sob Barack Obama, que viu suas “linhas vermelhas” serem
rompidas uma após a outra, sem reação.
Uma Rússia distraída pela guerra na Ucrânia e o “Eixo de
Resistência” liderado por um Irã debilitado pelos golpes de Israel nos últimos
meses foram de longe o fator decisivo para o fim de Assad. Em duas semanas,
suas forças fugiram em debandada ante os avanços fulminantes dos rebeldes. Sua
queda marca uma mudança sísmica no equilíbrio de poder na região.
Uma prioridade para a comunidade internacional é garantir
que os estoques de armas químicas na Síria não caiam nas mãos dos jihadistas. A
Força Aérea israelense já bombardeou uma delas ontem.
Muito do que acontecerá na sequência dependerá do Hayat
al-Sham (HTS), o grupo que liderou a recente ofensiva. Ele vem governando com
alguma competência, dadas as circunstâncias, a província de Idlib, pediu
moderação aos seus correligionários e prometeu tratar com dignidade as minorias
cristãs e curdas e até os alauitas. Mas até 2017 o HTS era filiado à Al-Qaeda,
e suas relações com outros rebeldes são convolutas. Ele tem rusgas ideológicas
com o Exército Nacional Sírio apoiado pela Turquia, tem um histórico de
hostilidade aos curdos e é classificado como uma organização terrorista tanto
por Estados árabes quanto ocidentais, o que complica quaisquer negociações. A
Turquia é agora um protagonista-chave, e todos os olhos e esforços diplomáticos
devem se voltar a Ancara.
É certo que a partir de agora se abriu um novo capítulo para
a história da Síria e do Oriente Médio, mas qualquer previsão é temerária. A
queda de Assad e a humilhação de Teerã e do Hezbollah podem levar a uma Síria e
a um Líbano mais tolerantes? Não é impossível, mas o caminho é tortuoso, e a
porta para a paz é estreita. E ela pode ser facilmente trancada pelas disputas
intestinas dos rebeldes. O próximo capítulo pode ser muito mais brutal e a
Síria pode ser dilacerada e sangrar por gerações.
Qualquer pessoa ciosa dos direitos humanos não pode deixar
de sentir uma ponta de alegria com a derrocada de um dos maiores criminosos de
nossa era. Mas as palavras de Henry Kissinger a propósito da Guerra Irã-Iraque
nos anos 1980 repercutem com extraordinária atualidade: é uma pena que ambos os
lados não possam perder.

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