Para cientista político, reação às ameaças de ruptura
feitas pelo ex-presidente demorou
As instituições demoraram a reagir às ameaças de ruptura que
ameaçam a democracia, avalia o cientista político Fernando Limongi, professor
da Fundação Getulio Vargas (FGV), que lançou neste mês o livro “Democracia
Negada: Política Partidária do Brasil na Nova República”, em coautoria com
Leonardo Weller. Para Limongi, o ex-presidente Jair Bolsonaro, indiciado pela
Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado em inquérito que tramita no
Supremo Tribunal Federal (STF), poderia ter tido sua carreira eleitoral
interrompida ainda nos anos 90.
“Bolsonaro desde que começou sua carreira política deu
inúmeras oportunidades de se agir contra ele. Começou a sua carreira pensando
em terrorismo, planejando explodir uma adutora. Passaram o pano para ele entre
os militares. Depois ele entrou no Congresso para representar a linha dura,
defendeu a tortura, o fuzilamento de presidente, tudo documentado”, disse
Limongi ao Valor, fazendo alusão a alguns momentos do início da
trajetória do ex-presidente.
Em 1988, ainda capitão do Exército,
Bolsonaro respondeu a um Inquérito Policial Militar (IPM) depois de citado em
uma matéria da revista “Veja” como um dos autores de um suposto plano para
cometer atos terroristas, em protesto por melhores salários dentro das Forças
Armadas. Ele foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) meses antes de
ser eleito vereador.
Em junho de 1993, a Câmara dos Deputados abriu processo por
quebra de decoro contra Bolsonaro por ele ter pregado o fechamento do Congresso
e um golpe militar. A representação não seguiu adiante. Em 1999, o então
deputado defendeu o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Bolsonaro não sofreu nenhuma sanção, o que provocou estranheza em FHC, conforme
lembra Limongi.
Bolsonaro não é um personagem no novo livro de Limongi. A
obra retrata o período entre 1985 e 2016, quatro décadas em que, conforme
escreveram os autores, “prevaleceu no país a resolução de conflitos por meio de
arranjos consensuais, negociados por grupos aparentemente opostos, mas que têm
em comum o pertencimento à elite política nacional”.
Esta tendência à composição comprometia os atores políticos
com a alternância de poder. De acordo com a obra, este traço esteve presente
mesmo em momentos de crise política aguda, como o do impeachment do então
presidente Fernando Collor, em 1992.
Bolsonaro tornou-se protagonista de uma era nova, de
polarização e embates diretos, não coberta pelo livro por ser demasiadamente
contemporânea, iniciada na visão de Limongi a partir do impeachment da então
presidente Dilma Roussef, em abril de 2016.
Para Limongi, a inabilitação de Bolsonaro não
necessariamente muda o curso político. “A inelegibilidade de Bolsonaro não tira
a direita radical do jogo político. Ela pode ser representada por outro ator.
Dependerá de como Bolsonaro organizará sua própria sucessão”, diz. Uma das
possibilidades cogitadas no meio político, que Limongi não subestima, é a de
Bolsonaro se apresentar como candidato a presidente, mesmo inelegível,
colocando um filho como vice, o que judicializaria de vez a eleição de 2026.
O cientista político é um crítico do que considera
interferência do Judiciário no processo eleitoral. Em sua opinião, a reunião de
Bolsonaro com embaixadores no Palácio da Alvorada para fazer acusações sem
provas contra a Justiça Eleitoral, em julho de 2022, não era uma razão
suficientemente legítima para torná-lo inelegível. Mas no caso de tentativa de
golpe de Estado seu entendimento é outro. “A democracia tem que se defender de
agentes que a desrespeitam”, comentou.
“É importante se agir contra peixes pequenos antes que se
tornem grandes. Quando a personalidade chega a um determinado nível de
liderança, fica muito mais difícil agir, porque sempre se vai argumentar que
existe perseguição política, e sempre será difícil separar uma coisa da outra.
Se é para agir como força disciplinadora, tem que agir no momento certo”,
comentou.

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