segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

CHUVAS REVELAM DESPREPARO DE SP PARA ALAGAMENTOS

Editorial O Globo

A outrora terra da garoa virou cidade das enchentes. Obras preventivas e planejamento são urgentes

Outrora chamada terra da garoa, São Paulo se transformou numa cidade de alagamentos. A qualquer chuva mais forte, surgem inundações com vítimas e perdas materiais. Entre dezembro e janeiro, os temporais mataram 17 pessoas. A cidade é repleta de encostas e ocupações irregulares à margem de rios, córregos e represas, áreas mais atingidas nas enxurradas.

O perigo não está apenas na periferia. O temporal que desabou sobre São Paulo dias atrás matou o pintor Rodolpho Tamanini Netto em sua casa na Vila Madalena, bairro nobre, quando um carro levado pela enxurrada destruiu uma porta de contenção, e a água subiu 2 metros dentro da casa. Por uma trágica ironia, uma das obras de Tamanini é “A enchente”, quadro pintado com cenas que ele presenciava da janela. Além dele, morreram uma criança de 7 anos, arrastada quando brincava na rua noutro bairro, e o motociclista Bruno Anselmo Santana, ao cair num córrego.

A excessiva impermeabilização do solo e a canalização de rios fazem a água da chuva correr com velocidade sobre o asfalto ou sobre o concreto. Em algum lugar, a enxurrada causará inundação. “O centro está todo impermeabilizado”, diz Ivan Whately, vice-presidente de Atividades Técnicas do Instituto de Engenharia. Contra isso, há técnicas que deixam áreas livres para a água infiltrar-se no solo, em localidades conhecidas como cidades-esponja. São Paulo e outras cidades fariam bem em buscar inspiração nesses exemplos.

Em sua rápida expansão, a metrópole paulistana ocupou as várzeas dos rios. Chuvas fortes inevitavelmente alagam áreas que no passado eram livres. O Rio Tietê, quando enche demais, inunda as galerias e ressurge distante de suas margens, impedindo o escoamento da chuva. Situação parecida acontece no Rio de Janeiro quando temporais coincidem com a maré cheia. As águas não têm para onde escoar e inundam bairros próximos.

Há 30 anos várias prefeituras construíram piscinões, grandes reservatórios subterrâneos para armazenar a água da chuva. Passado o temporal, ela é liberada aos poucos. Foi assim que acabaram as inundações outrora frequentes na Avenida Pacaembu, área nobre da cidade. Há um piscinão debaixo da Praça Charles Miller, em frente ao estádio. Piscinões ajudam, mas deveriam ser acompanhados por medidas para controlar a urbanização, sem esquecer espaços para escoar as cheias, diz Liliane Frosini Armelin, professora da Universidade Mackenzie e doutora em engenharia hidráulica e saneamento pela USP. As soluções são conhecidas. A maior dificuldade está na gestão, que precisa fazer as escolhas certas e investir antes das tragédias.

Em tempos de eventos climáticos extremos, São Paulo e todas as grandes cidades brasileiras carecem de planejamento e obras preventivas. Não adianta tomar medidas apenas depois que ocorre alguma catástrofe. Todo administrador regional sabe quais são os pontos críticos de seu bairro. Uma governança municipal integrada seria capaz de definir as prioridades. Há muito a fazer em cidades que cresceram sem uma visão mais ampla da ocupação do terreno e da necessidade de infraestrutura, incluindo obras para facilitar o escoamento de águas pluviais. São Paulo, Rio e outros centros urbanos precisam correr contra o tempo perdido.

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