A outrora terra da garoa virou cidade das enchentes.
Obras preventivas e planejamento são urgentes
Outrora chamada terra da garoa, São
Paulo se transformou numa cidade de alagamentos. A qualquer chuva mais
forte, surgem inundações com vítimas e perdas materiais. Entre dezembro e
janeiro, os temporais mataram 17 pessoas. A cidade é repleta de encostas e
ocupações irregulares à margem de rios, córregos e represas, áreas mais
atingidas nas enxurradas.
O perigo não está apenas na periferia. O temporal que
desabou sobre São Paulo dias atrás matou o pintor Rodolpho Tamanini Netto em
sua casa na Vila Madalena, bairro nobre, quando um carro levado pela enxurrada
destruiu uma porta de contenção, e a água subiu 2 metros dentro da casa. Por
uma trágica ironia, uma das obras de Tamanini é “A enchente”, quadro pintado
com cenas que ele presenciava da janela. Além dele, morreram uma criança de 7
anos, arrastada quando brincava na rua noutro bairro, e o motociclista Bruno
Anselmo Santana, ao cair num córrego.
A excessiva impermeabilização do solo e a canalização de
rios fazem a água da chuva correr com velocidade sobre o asfalto ou sobre o
concreto. Em algum lugar, a enxurrada causará inundação. “O centro está todo
impermeabilizado”, diz Ivan Whately, vice-presidente de Atividades Técnicas do
Instituto de Engenharia. Contra isso, há técnicas que deixam áreas livres para
a água infiltrar-se no solo, em localidades conhecidas como cidades-esponja.
São Paulo e outras cidades fariam bem em buscar inspiração nesses exemplos.
Em sua rápida expansão, a metrópole paulistana ocupou as
várzeas dos rios. Chuvas fortes inevitavelmente alagam áreas que no passado
eram livres. O Rio Tietê, quando enche demais, inunda as galerias e ressurge
distante de suas margens, impedindo o escoamento da chuva. Situação parecida
acontece no Rio de Janeiro quando temporais coincidem com a maré cheia. As
águas não têm para onde escoar e inundam bairros próximos.
Há 30 anos várias prefeituras construíram piscinões, grandes
reservatórios subterrâneos para armazenar a água da chuva. Passado o temporal,
ela é liberada aos poucos. Foi assim que acabaram as inundações outrora
frequentes na Avenida Pacaembu, área nobre da cidade. Há um piscinão debaixo da
Praça Charles Miller, em frente ao estádio. Piscinões ajudam, mas deveriam ser
acompanhados por medidas para controlar a urbanização, sem esquecer espaços
para escoar as cheias, diz Liliane Frosini Armelin, professora da Universidade
Mackenzie e doutora em engenharia hidráulica e saneamento pela USP. As soluções
são conhecidas. A maior dificuldade está na gestão, que precisa fazer as
escolhas certas e investir antes das tragédias.
Em tempos de eventos climáticos extremos, São Paulo e todas
as grandes cidades brasileiras carecem de planejamento e obras preventivas. Não
adianta tomar medidas apenas depois que ocorre alguma catástrofe. Todo
administrador regional sabe quais são os pontos críticos de seu bairro. Uma
governança municipal integrada seria capaz de definir as prioridades. Há muito
a fazer em cidades que cresceram sem uma visão mais ampla da ocupação do
terreno e da necessidade de infraestrutura, incluindo obras para facilitar o
escoamento de águas pluviais. São Paulo, Rio e outros centros urbanos precisam
correr contra o tempo perdido.

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