Elas não são brinquedo. Podem atingir os olhos, e seu uso
frequente já é sentido nos consultórios
Impulsionadas pelas redes sociais, batalhas com armas de gel
se espalharam pelo Brasil. Deveriam preocupar as autoridades pelos danos que
podem causar, principalmente aos olhos. Aparentemente inofensivas, usam
bolinhas de gel como munição. São facilmente encontradas à venda nas cidades
brasileiras. Não se trata de simples brinquedo. Segundo o Instituto Nacional de
Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), essas armas não podem ser
classificadas assim. Embora não sejam baratas — na região da Saara, comércio
popular no Centro do Rio, são vendidas em bancas de ambulantes por preços entre
R$ 150 e R$ 210 —, elas têm atraído compradores de diferentes idades, em
especial crianças, adolescentes e jovens.
O resultado de seu uso, cada vez mais comum, tem sido
observado em consultórios. Em Pernambuco, onde viraram febre, dezenas já
procuraram atendimento médico por problemas nos olhos, segundo a Fundação
Altino Ventura, referência em tratamento oftalmológico no estado. Médicos dizem
que as bolinhas de gel podem causar lesões na córnea, sangramentos internos,
inflamações, dor e deficiências visuais. Em novembro, um menino de 8 anos,
morador de Paulista (PE), precisou operar um dos olhos depois de alvejado. Posteriormente,
a cidade sancionou lei proibindo armas de gel.
O risco de danos aos olhos não é o único problema. Em
cidades acossadas pela violência,
armas de gel podem assustar moradores, como sugere um vídeo que viralizou. “E
nós que saímos de carro na nossa cidade com a arminha de gel, e o povo pensando
que era de verdade kkk?”, diz o autor da peça. Em Volta Redonda, interior do
Rio, policiais repreenderam jovens que “brincavam de arrastão” com essas
pistolas. Os próprios usuários se colocam em risco. “No Rio, a polícia já matou
quem portava objetos como furadeiras e outros itens confundidos com arma de
fogo. Em
certos territórios, isso é extremamente perigoso, principalmente à noite”,
disse ao GLOBO o sociólogo Inácio Cano, coordenador do Laboratório de Análise
da Violência (LAV), da Uerj. “Um segundo efeito é a contribuição para
a expansão da cultura das armas.”
Não se pode dizer que a polícia faça vista grossa. Em
Pernambuco, uma operação da Polícia Civil apreendeu mais de 3.500 armas de gel
de origem ilícita e certificação irregular. Algumas ostentavam selo falso de
segurança do Inmetro. A julgar pela profusão delas, a repressão não tem surtido
efeito. Na falta de legislação específica, uma vez que elas não se enquadram
noutras categorias, os parlamentares de pelo menos sete estados já preparam
Projetos de Lei para proibi-las. Inúmeras cidades seguem pelo mesmo caminho. Se
não houver fiscalização, só a lei não bastará.

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