Medida que aumenta tarifas sobre importações de Canadá,
México e China pode impactar mercado de trabalho e inflação
Com sua retórica beligerante costumeira, Donald
Trump instituiu a primeira
medida que pode gerar uma guerra comercial com grande impacto para a
economia mundial.
Sem distinguir entre aliados e adversários, o presidente
dos Estados
Unidos decidiu impor tarifas de 25% sobre as importações do México e
do Canadá —com
exceção de energia, que será taxada em 10%.
Também haverá tarifas de 10% para importações da China,
em adição às cobranças já vigentes, que abrangem certas categorias de produtos.
Juntos, os três perfazem 43% das importações americanas, o
equivalente a US$ 1,3 trilhão (em torno de 4,8% do PIB).
A alta das taxas com essa abrangência fará com que a
cobrança média sobre todas as importações passe de cerca de 3% para quase 11%,
acima da tarifa linear de 10% proposta por Trump durante sua campanha
eleitoral.
As justificativas alegadas não são apenas econômicas. Ao
invocar poderes emergenciais, Trump mencionou o fluxo ilegal de imigrantes
e drogas,
em especial os opioides traficados por cartéis mexicanos com componentes
obtidos na China. No caso do Canada, haveria evidência de aumento do tráfico
pela maior fronteira não vigiada do mundo.
Trump faz valer, assim, sua obsessão com tarifas, que
prometeu usar mais amplamente como arma, e não somente para conter o déficit
comercial do país, de quase US$ 1 trilhão anual. Na melhor das hipóteses, as
medidas podem ser revertidas após negociações, mas os riscos são grandes.
No caso dos vizinhos, há gigantesca assimetria. Ambos
destinam quase 80% de suas exportações aos EUA, o que representa 22% do PIB do
Canadá e 35% do PIB do México. Já as compras feitas pelos EUA dos dois países
somam 4% do PIB americano.
Mesmo assim, o
Canadá já anunciou a mesma cobrança sobre cerca de US$ 106 bilhões em
bens que importa dos EUA. A China foi mais contida, prometendo levar o caso à
Organização Mundial do Comércio, mas não se descarta uma reação mais dura. O
México tem a posição mais frágil.
De todo modo, também haverá custos para os EUA. Mesmo com
diminuta representação no PIB, as compras americanas são grandes em setores
considerados críticos, como o automotivo.
A inviabilização de um pedaço da cadeia produtiva é capaz de
produzir reação cumulativa que custará empregos para a população americana. Não
se devem descartar efeitos recessivos.
Projeta-se ainda um impacto inflacionário, algo que pode ser
contraproducente para Trump. A alta nos preços de alimentos e gasolina, afinal,
foi uma das explicações para a derrota eleitoral do Partido
Democrata.
Por ora, o republicano não parece se importar e acredita que
seu método agressivo pode trazer vitórias imediatas. Mas o uso repetido de
tarifas e da coerção pode afastar aliados e, ao longo do tempo, enfraquecer a
liderança global já combalida dos EUA.

Nenhum comentário:
Postar um comentário