quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

MERCADO DE TRABALHO DÁ SINAIS DE DESACELERAÇÃO DA ECONOMIA

Editorial Valor Econômico

Se as empresas e empresários sofreram coação ilegal, nada devem à União nem deveriam pagar um tostão

Um alerta acendeu no mercado de trabalho. Embora os números de 2024 tenham sido positivos, o último mês do ano mostrou que os bons resultados podem não se repetir. A sinalização é mais forte no Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, e que mede o emprego formal, mas também é visível na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O ano terminou com saldo positivo de 1,7 milhão de vagas formais abertas. Segundo o Caged, o melhor resultado anual desde 2022, quando 2 milhões de postos foram criados. O registro é 16,5% superior ao de 2023. O setor de serviços liderou ao contratar quase 1 milhão de trabalhadores. Os serviços são a principal fonte de pressão sobre a inflação, além dos alimentos. Comércio, indústria e construção vieram na sequência.

O desempenho do mercado em 2024 embutiu, no entanto, sinais de enfraquecimento ao longo do segundo semestre. Em outubro houve queda de 47,2% dos novos postos de trabalho sobre setembro; e, em novembro, o saldo foi 19% menor que no mês anterior. O pior ocorreu em dezembro, quando foram fechadas 535,4 mil vagas de trabalho com carteira assinada, extrapolando a sazonalidade do mês. O resultado superou a expectativa do próprio governo e foi o pior para o mês desde 2020, durante a pandemia de covid-19. Os cinco grupos de atividades econômicas registraram saldo negativo em dezembro. O setor de serviços também se destacou nas demissões, com o fechamento de 257,7 mil postos apenas no mês. Em seguida ficaram a indústria, a construção, a agropecuária e o comércio.

Os números do IBGE vão na mesma direção. A taxa média de desemprego de 2024, apurado pela Pnad Contínua, foi de 6,6%, abaixo dos 7,8% de 2023, e o menor patamar desde 2012. É a primeira vez que a média anual fica abaixo dos 7% apurados em 2014. A máxima ocorreu em 2021, e foi de 14%.

Ao fim do ano, havia 103,818 milhões de trabalhadores ocupados, 2,7 milhões a mais do que no ano anterior. Esse grupo corresponde a 58,6% da população com 14 anos ou mais, a maior taxa já registrada pela série histórica, superando o recorde de 58,3% de 2013.

O número de pessoas ocupadas nunca foi tão alto no país, com recordes nas vagas formais e por conta própria. A população desocupada caiu para 6,8 milhões, o registro mais baixo desde 2014. O avanço no emprego foi puxado pela formalidade, segundo o IBGE. O emprego esteve aquecido em todos os setores. Comércio, transporte, administração pública, informação e comunicação e outros serviços atingiram recorde de profissionais.

O rendimento médio também foi o maior já registrado. A renda média mensal dos ocupados atingiu R$ 3.315 no último trimestre do ano. Valores superiores só existiram na pandemia, quando a crise tirou do mercado os informais, trabalhadores que ganham menos, elevando a média até acima do nível atual. Desta vez, o aumento na geração de empregos formais, reajustes para servidores públicos, elevação do salário mínimo e recuperação dos ganhos de informais, em setores como a construção, influenciaram.

Assim como o Caged, a Pnad Contínua também mostrou piora no fim do ano. No trimestre encerrado em dezembro, a taxa de desemprego subiu para 6,2%, na comparação com os 6,1% do trimestre móvel terminado em outubro, e ficou acima das previsões do mercado. Foi a primeira elevação após oito trimestres móveis consecutivos de quedas.

Se o mercado de trabalho foi favorecido em 2024 pela melhora da atividade econômica, o fim do ano já reflete, além de fatores sazonais, perspectivas menos favoráveis para 2025, influenciadas por fatores como a elevação dos juros e a pressão da inflação. O aumento da Selic iniciado em setembro e a sinalização dada pelo Copom de que as taxas continuarão subindo até março, com repercussões no crédito, desestimulam a contratação. O cenário fiscal doméstico e as novas pressões que vêm do exterior com a política econômica e comercial dos EUA, sob o comando de Donald Trump, não ajudam.

Além do mercado de trabalho, outros setores sensíveis antecipam a desaceleração da economia esperada para o ano. Um deles é o varejo, cuja taxa de expansão em unidades caiu de 11% para cerca de 2%, entre a primeira e a terceira semana de janeiro, na comparação com os mesmos períodos de 2024, segundo monitoramento da NielsenIQ (NIQ). Já pesquisa da Scanntech mostra que, nos últimos seis meses, metade do ganho em volume visto nos primeiros meses de 2024 foi anulada (Valor, 31/1). A redução das vendas ocorre também em supermercados e hipermercados do Nordeste, onde está a maior a base de eleitores do presidente Lula.

Na mesma linha, pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) constatou a queda de 0,9% da Intenção de Consumo das Famílias (ICF) em janeiro, em comparação com o mesmo mês de 2024, motivada pela queda de emprego e da renda e piora no acesso ao crédito.

Os indícios de desaceleração da economia devem interromper o bom momento do mercado de trabalho, influenciando o nível de atividade e a inflação. Há previsão de que o desemprego pode voltar aos 7%, com inevitável repercussão política.

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