Não se sabe até que ponto ele levará a cabo suas ameaças, mas uma guerra comercial terá custo alto para todos
No que diz respeito às tarifas, ninguém pode acusar Donald Trump de estelionato eleitoral. Ele foi explícito na campanha à Presidência ao dizer que taxaria produtos importados de Canadá, México e China. Ao pôr a promessa em prática, explora politicamente o ressentimento de quem se sente alijado dos benefícios da integração comercial. Para os Estados Unidos e para o mundo, porém, o efeito será péssimo. Com diagnóstico contrário à ciência econômica, Trump faz pouco-caso das consequências potencialmente devastadoras. A reação ao tarifaço levanta o risco de uma guerra comercial sem precedentes em quase cem anos.
Depois da ameaça inicial, Trump congelou por um mês as tarifas impostas sobre México e Canadá. Nesse prazo, os países buscarão consenso sobre medidas de segurança na fronteira. Em discurso emocionante, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, fizera questão de lembrar o longo histórico de parceria com os americanos: “Das praias da Normandia às montanhas da Península Coreana, dos campos de Flandres às ruas de Kandahar, nós, canadenses, lutamos e morremos ao seu lado”. E lembrou que o Canadá é rico em minerais estratégicos para a economia digital. Não se sabe até que ponto Trump levará a cabo suas ameaças, mas perder o apoio canadense, implodir a área de livre-comércio na América do Norte ou deflagrar uma guerra comercial de proporções globais terá custo altíssimo para todos — a começar dos americanos.
Quem apoia as tarifas argumenta que os Estados Unidos perderam mais de 5 milhões de empregos industriais desde o fim dos anos 90. Sustenta que, nas últimas quatro décadas, o país importou mais que exportou. Alega que quem tem superávit comercial — sobretudo a China — exporta desemprego para os americanos, portanto a solução é elevar as tarifas. De acordo com estudo da Tax Foundation, elas renderiam ao redor de US$ 100 bilhões por ano e, segundo a Casa Branca, incentivariam a criação de empregos locais.
O certo é que o tarifaço pressionará os preços dos importados para cima. Mantido o mesmo padrão de consumo, uma típica família americana gastará entre US$1.700 e US$ 2.600 a mais por ano. Isso sem contar o efeito inflacionário da deportação de imigrantes, que tornará mais cara a mão de obra. Embora exista nostalgia dos empregos industriais do passado, é incerto se as tarifas incentivarão a reindustrialização na medida sonhada e, principalmente, se os americanos aceitarão vagas abertas. O trabalho em atividades de produção, transporte e movimentação de materiais atrai hoje mais imigrantes (legais e ilegais).
A decisão de Trump ignora a ciência econômica. No início do século XIX, o economista inglês David Ricardo provou que a especialização de cada país nas atividades em que tem vantagens comparativas, com trocas livres nos mercados, é benéfica para todos. O comércio internacional não é um jogo de soma zero, em que ganhos de uns equivalem a perdas para os demais. Déficits ou superávits comerciais não refletem sucesso ou fracasso, mas escolhas de consumo dos cidadãos de cada país. Eventuais distorções provocadas pelo comércio devem ser corrigidas por políticas que nada têm a ver com tarifas. O remédio populista adotado por Trump já foi usado no passado. A história mostra que causa mais sofrimento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário